Arigó, o retorno depois de boiado

Publicado em: 20/01/2011 às 00:00 | Atualizado em: 20/01/2011 às 00:00

 

Massilon de Medeiros Cursino*

            Figura carismática, Arigó recebeu como nome de batismo Raimundo Osvaldo Matos Novo, entretanto, o agrado incorporou à pessoa mais que o próprio nome oficial.

            Sujeito trabalhador, criativo, sonhador e descontraído, Arigó sempre foi do tipo que chamava a atenção. Era uma espécie de Professor Pardal na rua 31 de março.

            Tinha um bar de venda de picolés, onde a meninada disputava as bolsas de venda, à tapa. Bar “legal” era o nome de seu empreendimento.

            Quando caía a venda de picolé, Arigó inovava, ia produzir cadeiras, mesas, vassouras, portas talhadas etc. Fazia projetos que venderia sua produção para uma grande distribuidora, iria ganhar dinheiro, mas infelizmente quase sempre o que projetava não se concretizava.

            Cansado de não ver vingar seus projetos, Arigó resolveu mudar de cidade, iria atrás de outros horizontes, onde o mercado estivesse mais aquecido. Pensou em vender sua casa, todavia, lembrou-se que ela ainda serviria, aliás, já tinha feito até um aquário dentro de seu balcão. Quando voltasse abonado, com dinheiro no bolso tinha projetos para a casa conquistada com muita labuta. Na maioria das vezes atuou como próprio pedreiro na edificação do imóvel.

            Arigó, mais uma vez resolveu levar adiante o projeto, estava resignado, decidido a ir embora para Manaus, a casa ficaria alugada e ele, conforme fazia questão de dizer, “só voltaria a Parintins depois de boiado”, em outras palavras, bem financeiramente.

            Confiante em seu taco de homem trabalhador, Arigó segue para Manaus, onde a filha mais velha já morava há alguns anos. Na capital, Arigó alugou uma casa próxima a um igarapé e começou sua aventura em solo baré. O seu segundo filho foi logo arrumando emprego numa livraria e o homem se danou a trabalhar. Virou uma espécie de faz tudo. O dinheiro começou a entrar e Arigó via as coisas acontecendo, sempre se lembrando da promessa que fizera, de que ficaria “boiado” na capital.

            Meses se passaram e uma forte chuva despencou sobre Manaus. Parecia um dilúvio. A água do igarapé próximo subiu tanto que atingiu casas mais distantes, entre elas a que Arigó residia. Arigó pegou a enxada e tentava a todo custo desviar o curso da água. Debalde e de balde em mão, Arigó já estava com a água pela cintura quando se depara com uma forte luz sobre seu rosto e um microfone próximo à sua boca, Arigó estava diante das câmeras do jornal da Rede Amazônica de Televisão. O repórter nem bem fez a pergunta sobre a desoladora situação e Arigó rasgou o verbo contra as autoridades.

            No final de tarde, o jornal já exibia a imagem voraz da chuva e a luta de um cidadão chamado Arigó. Inúmeras pessoas em Parintins assistiram à cena do telejornal e identificaram o conterrâneo.

            Na rua  31 de março, Centro, as pessoas foram pra frente de suas casas comentar o que viram na televisão. Foi quando um ex-vizinho franzino disse: – Agora o Arigó volta pra Parintins. Ele prometeu que quando tivesse “boiado” ele voltaria. E vocês todos viram o quanto o homem boiou.

            Uma semana depois, Arigó aportava em Parintins. Voltou com malas e cuias. Seu projeto, mais uma vez, quase se concretiza, mas que o homem ficou boiado, ficou. Isso todos viram!  

*Economista, Bacharel em Direito

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Twitter: @massilon_pin

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