A Romaria nas Águas e o nascimento do círio amazonense

Dassuem Nogueira mostra como a Romaria nas Águas une fé, arte e identidade cultural, fortalecendo a Festa de Nossa Senhora do Carmo e ampliando sua projeção no Amazonas.

Fé e arte dos parintinenses navegam pelo rio Amazonas

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 18/07/2026 às 13:23 | Atualizado em: 18/07/2026 às 13:23

Dia 16 de julho, é dia da padroeira de Parintins, Nossa Senhora do Carmo. A festa é uma das maiores manifestações de fé católica do Amazonas.

Chama atenção o crescimento da projeção de uma das homenagens mais belas à virgem do Carmelo: a Romaria nas águas, uma procissão fluvial que, anteriormente, ocorria na região de Parintins e há seis anos parte de Manaus.

O encontro entre o universo bovino e a devoção católica projeta a Festa de Nossa Senhora do Carmo como uma celebração capaz de alcançar, entre os amazonenses, a mesma relevância que o Círio de Nazaré possui para os paraenses.

A promessa

A Romaria das Águas, como os bois de Parintins, surge de uma promessa. Juarez Lima, artista de alegoria dos bois, falecido em 2024, devoto de Nossa Senhora do Carmo, fez uma promessa pela recuperação de seu amigo e também artista Jair Mendes, que havia sofrido um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Se Jair se recuperasse, ele faria uma procissão fluvial em homenagem à santa. Com a recuperação do amigo, creditada à intercessão da padroeira, Juarez passou a cumprir sua promessa em 2009.

Arte e fé

Assim, por quinze anos, Juarez Lima e outros artistas parintinenses se juntaram para confeccionar uma berlinda, que leva a imagem de Nossa Senhora do Carmo, e para criar uma alegoria agigantada da imagem, sua competência maior.

 Conduzida em uma embarcação, a imagem é seguida por outras menores que, no pôr do sol, jogam barquinhas com velas acesas, deixando um rastro de fé por onde passa a imagem da santa.

Como mencionado, Juarez Lima faleceu em 2024. Hoje a Romaria nas águas segue conduzida pelos artistas parintinenses como seu legado de fé.

Inicialmente, a romaria acontecia na região da Ilha Tupinambarana. Há seis anos ela parte de Manaus.

Nesta edição, viu-se uma grande movimentação na praia da Ponta Negra para a despedida da imagem da santa rumo a Parintins. Na Boca do Lago do Limão, próximo à Parintins, juntaram-se embarcações menores e formou-se o rastro com as velas.

O toque de Midas

Nota-se que há um movimento crescente de promoção da Romaria das Águas como um grande evento do catolicismo popular, em especial, pelos artistas dos bois-bumbás de Parintins.

Sendo referência na produção artística e envolvidos com a sua produção da Romaria, como tudo o que tocam,  os artistas parintinenses têm tornado o ato de fé, também, um espetáculo de arte.

A cada ano nota-se um investimento maior nas alegorias, no engajamento dos artistas de boi, da imprensa e dos produtores de conteúdo das mídias digitais.

Além disso, sendo a arte das alegorias de Parintins uma referência, essa identidade cultural tem se estendido à Romaria nas Águas.

Fora da bolha

Nota-se, talvez em consequência da maior projeção do próprio Festival Folclórico de Parintins nos últimos anos, que a Romaria nas Águas também tem tido maior repercussão.

A procissão fluvial, junto com a festa de Nossa Senhora do Carmo, na qual os artistas também se envolvem, leva para o mundo católico a referência da arte parintinense.

De outro lado, os artistas de boi-bumbá, como os artistas de alegoria e os itens oficiais, chamam a atenção do mundo bovino para a outra grande festa produzida na ilha, agora religiosa.

Não se afirma aqui que o Festival de Parintins projeta a festa de Nossa Senhora do Carmo. A festa já é, há décadas, uma das maiores do estado, ao lado do festejo de Santo Antônio de Borba.

Mas, por exemplo, essa outra grandiosa manifestação de fé católica do Amazonas, não tem a mesma repercussão para além do mundo católico. 

Identificação

As narrativas dos artistas de boi sobre o trabalho da virgem do Carmelo em suas vidas os aproximam dos demais devotos.

Artistas como Davi Assayag, falam do sofrimento pela doença, da fé na santa, da promessa, da cura e do pagamento da dívida de fé.

Tal movimento não parece ser uma iniciativa oficial da Igreja Católica, mas dos artistas de Parintins.

Para além do universo católico, tal projeção se dá via redes sociais, pela imprensa registrando a participação dos artistas de boi e envolvendo grupos católicos, como o Terço Jovem, um movimento forte no universo católico de Manaus, na Romaria nas Águas.

O círio amazonense

O crescente envolvimento de Manaus e a incorporação da festa ao universo simbólico e celebrativo dos bois-bumbás apontam para um futuro em que a Festa de Nossa Senhora do Carmo possa representar, para os amazonenses, o que o Círio de Nazaré representa para os paraenses.

Nesse contexto, a arte parintinense consolidaria no Amazonas mais uma grande celebração popular, fortalecendo ainda mais o patrimônio cultural e a identidade coletiva do estado.

A autora é antropóloga*.

Foto: Francisco Cabral.