A Fiesp acusa a vítima de ser vítima
Plínio Coêlho analisa a reação da Fiesp ao tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, argumentando que a entidade atribui indevidamente ao governo Lula uma decisão tomada pelos Estados Unidos.
Por Plinio Cesar Coêlho*
Publicado em: 17/07/2026 às 08:00 | Atualizado em: 16/07/2026 às 17:09
Ao responsabilizar o governo Lula pelo tarifaço de Trump, a entidade inverte os fatos, separa artificialmente economia e política e ignora a atuação da família Bolsonaro em Washington. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) tem razão ao demonstrar preocupação com os prejuízos que a nova tarifa norte-americana poderá causar à indústria brasileira.
Mas erra gravemente ao apontar o governo Lula como responsável pela agressão comercial praticada pelo governo de Donald Trump. Em sua nota, a entidade atribuiu a medida a supostos “ruídos diplomáticos desnecessários”, “críticas personalistas”, “discursos eleitorais” e ao “desalinhamento político com Washington”.
O raciocínio da Fiesp inverte a ordem dos acontecimentos: Trump aplica a punição, mas Lula recebe a culpa. É como responsabilizar a vítima por não ter sido suficientemente dócil diante do agressor.
A decisão foi tomada pelo governo dos Estados Unidos. O próprio Escritório do Representante Comercial norte-americano – USTR – informa que a sobretaxa de 25% foi determinada pelo presidente Donald Trump e atingirá grande parte das importações brasileiras a partir de 22 de julho. A investigação foi iniciada em julho de 2025, também por determinação direta do presidente norte-americano.
Evidentemente, toda política externa deve combinar firmeza, capacidade técnica, negociação e pragmatismo. Nenhum governo está acima de críticas quanto à forma de conduzir suas relações internacionais. Mas negociar não significa aceitar imposições, muito menos subordinar a soberania brasileira aos interesses políticos de Washington.
A inversão da responsabilidade
A expressão utilizada pela Fiesp – “desalinhamento político com Washington” – é especialmente reveladora. Desde quando o alinhamento político com uma potência estrangeira se tornou condição para que o Brasil tenha direito a relações comerciais justas?
Divergir dos Estados Unidos não pode ser apresentado como erro diplomático. Países soberanos defendem seus interesses, negociam suas diferenças e não precisam pedir autorização para estabelecer suas próprias políticas econômicas, ambientais, tecnológicas ou judiciais.
A investigação norte-americana apresentou justificativas formais relacionadas ao comércio digital, aos sistemas de pagamento eletrônico, às tarifas brasileiras, à propriedade intelectual, ao etanol, à política ambiental e ao combate à corrupção. Essas questões podem e devem ser discutidas tecnicamente.
Mas a aplicação de uma tarifa unilateral nunca é apenas técnica. Tarifas são instrumentos de poder, pressão diplomática e disputa política. Economia e política não habitam universos separados.
Além disso, existe um contexto político que a manifestação da Fiesp prefere ignorar. Em 2025, Donald Trump vinculou publicamente a imposição de tarifas contra o Brasil ao processo judicial enfrentado por Jair Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro chegou a reivindicar participação nas pressões exercidas em Washington. Mais recentemente, Eduardo e Flávio Bolsonaro mantiveram contatos com autoridades norte-americanas, inclusive com Trump.
O contexto político ignorado
A família nega ter articulado especificamente a nova tarifa de 25%, mas sua atuação anterior contra os interesses brasileiros é um fato público, não uma invenção do governo Lula.
Não é necessário afirmar que cada linha da decisão anunciada em 15 de julho tenha sido escrita pela família Bolsonaro para reconhecer o essencial: seus integrantes ajudaram a transformar interesses políticos domésticos em instrumentos de pressão estrangeira contra o Brasil.
Agiram no exterior procurando constranger instituições brasileiras e produzir dificuldades para o governo do próprio país, dificuldades que agora poderão atingir empresas, trabalhadores e exportadores nacionais. Por isso, é contraditório acusar Lula de “politizar” o episódio.
O assunto já havia sido politizado em Washington e pelo próprio bolsonarismo. O tarifaço anterior foi apresentado por Trump como reação ao tratamento dado a Jair Bolsonaro, enquanto Eduardo Bolsonaro assumia publicamente sua participação nas articulações. A política já estava no centro do conflito muito antes de a Fiesp pedir uma condução supostamente neutra e exclusivamente técnica.
Defender a indústria exige reconhecer os fatos
A preocupação da entidade com a competitividade da indústria é legítima. Empresas brasileiras poderão perder mercados, reduzir produção e enfrentar dificuldades adicionais. Porém, defender a indústria exige identificar corretamente de onde partiu a agressão. Não se protege o setor produtivo absolvendo quem impôs a tarifa e transferindo a responsabilidade para quem foi atingido por ela.
Criticar o governo Lula é legítimo. Avaliar sua estratégia de negociação também. O que não é legítimo é apagar a responsabilidade de Donald Trump, ignorar a atuação internacional da família Bolsonaro e apresentar a submissão política aos Estados Unidos como sinônimo de pragmatismo econômico.
A indústria brasileira não precisa de uma representação que ensine o país a baixar a cabeça. Precisa de uma liderança que defenda negociações firmes, respeito mútuo e soberania nacional. Afinal, o tarifaço foi decidido em Washington. Culpar o Brasil pela agressão que sofreu é, exatamente, culpar a vítima por ter sido vítima.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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