Sobre a ameaça de fechamento do Bar do Armando, em Manaus
Lúcio Carril analisa o fechamento do Bar do Armando e seus impactos sobre a memória cultural de Manaus.
Por Lúcio Carril*
Publicado em: 16/07/2026 às 15:08 | Atualizado em: 16/07/2026 às 15:08
Inicio este texto dizendo que a sociologia não fulaniza nem trata de problemas isolados. As ciências sociais tratam de fenômenos sociais. Quando um problema surge, ele só deve receber a atenção da sociologia se ocorrer coletivamente no campo social, cultural e histórico.
Sobre o fechamento do tradicional Bar do Armando, em Manaus, à ciência que estuda a sociedade interessa saber da memória da cidade e dos impactos que o encerramento de espaços coletivos causa na vida cultural e na história dessa cidade e do seu povo.
É óbvio que os atores devem estar presentes na análise, mas não o fulano A ou B, e sim as instituições. Não interessa se o diretor, dono ou curador é de direita, de esquerda, brasileiro ou japonês.
Bar é um espaço cultural porque é coletivo, é de frequência coletiva, de sociabilidade, onde circulam ideias e que faz parte da memória da cidade. Ele não existe apenas num único lugar, cidade ou país. Ele se define culturalmente de acordo com cada sociedade. Mesmo um boteco na periferia tem esse perfil se ele atravessou o tempo naquele lugar.
As cidades vêm perdendo seus espaços culturais e de memória. Prédios seculares são derrubados para dar lugar a verdadeiros monstrengos arquitetônicos. Espaços coletivos de convivência e desenvolvimento cultural são fechados pela ganância de grupos econômicos ou de instituições.
No caso do Bar do Armando, a Igreja Católica é a proprietária do prédio. Não somente desse prédio, mas de vários outros no entorno do Templo de São Sebastião, uma região de alto valor imobiliário.
A ganância da instituição é secular e não causa estranheza que ela queira fechar um espaço cultural e de memória para ganhar mais dinheiro. A história da Igreja Católica carimba essa conduta. Sua riqueza foi construída com pilhagem e mortes de centenas de povos. Quem nunca leu um livro de história deve, pelo menos, ter visto um filme sobre as Cruzadas.
Em nome de Deus, pilhou, roubou, matou.
Em nome de Deus, hoje vive da especulação imobiliária, e seu monarca absoluto vive numa sede que ostenta riqueza e movimenta um jogo financeiro milionário. Livros de vaticanistas revelam que, naquele Reino, a ganância se impõe.
É sobre esses dois sujeitos que devemos tratar, objetivamente, e não ficar fulanizando um problema coletivo.
É a memória de Manaus que está sofrendo ataque de uma instituição com histórico de saque e destruição. Foi assim que fecharam os cinemas de Manaus, cujos prédios foram derrubados, dando lugar a monstrengos arquitetônicos. Foi assim que destruíram teatros, bares, casas de espetáculos, bibliotecas, livrarias etc. É assim que destroem um povo.
Se não é uma instituição religiosa, é um banco, uma grande empresa estrangeira ou um milionário ignorante. No final, é o poder econômico e político que não respeita a memória do povo e termina por impor sua ganância.
Quem não lembra do prédio do Teatro Oficina, que o bilionário Sílvio Santos queria tomar? Zé Celso Martinez estava errado em lutar? Felizmente, o Estado de São Paulo desapropriou o terreno, e o teatro ficará lá.
É disso que estamos falando.
O autor é sociólogo*.
Foto: Divulgação.
