A bolha de sabão de Flávio e o cavalo de Troia do Banco Master

Plínio Coêlho analisa a controvérsia envolvendo Flávio Bolsonaro, o Banco Master, Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse.

Bolha de sabão diante de um cavalo de Troia estilizado

Por Plinio Cesar Coêlho*

 

Publicado em: 16/07/2026 às 08:00 | Atualizado em: 15/07/2026 às 19:21

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de proibir, por 90 dias, as visitas do senador Flávio Bolsonaro ao pai pode ser considerada excessiva, desproporcional e até contraproducente.

Segundo a CNN, ministros do próprio Supremo Tribunal Federal avaliaram reservadamente que Moraes teria cometido um “erro estratégico”.

A punição ocorreu depois que Flávio divulgou uma carta de Jair Bolsonaro em apoio à sua candidatura, contrariando as restrições impostas ao ex-presidente, que está proibido de se comunicar pelas redes sociais, direta ou indiretamente.

Moraes também encaminhou o caso ao Ministério Público Eleitoral para que seja apurada uma possível propaganda eleitoral antecipada.

Mas uma coisa precisa ficar clara: discutir o possível exagero de Moraes não pode servir para apagar o escândalo envolvendo o Banco Master. Moraes pode ter errado na dose sem que Flávio Bolsonaro se transforme, por milagre, em vítima inocente de todas as circunstâncias.

Ao contrário, a decisão oferece ao senador exatamente o terreno de que ele necessita: um palanque de vitimização, uma controvérsia institucional e uma enorme bolha de sabão capaz de ocupar a imprensa enquanto perguntas muito mais graves continuam sem resposta.

O foco que saiu do Banco Master

O centro da questão é o filme Dark Horse, uma cinebiografia concebida para apresentar Jair Bolsonaro como herói justamente em um período de intensa disputa política e eleitoral.

Reportagens baseadas em áudios, mensagens e documentos indicam que Flávio Bolsonaro teria negociado com Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, um financiamento de aproximadamente US$ 24 milhões – cerca de R$ 134 milhões – para a produção.

Desse total, pelo menos R$ 61 milhões teriam sido transferidos. Depois de inicialmente negar proximidade com Vorcaro, o próprio Flávio admitiu que procurou recursos privados para o projeto, embora negue qualquer ilegalidade ou contrapartida política.

A pergunta elementar é: por que um banqueiro envolvido em um dos maiores escândalos financeiros recentes do país destinaria dezenas de milhões de reais a uma obra de exaltação política da família Bolsonaro?

As mensagens divulgadas pela imprensa indicam que Vorcaro teria tratado os pagamentos relacionados ao filme como prioridade, mesmo diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelo Banco Master. Não se tratava, portanto, de um pequeno patrocínio cultural, mas de uma operação milionária envolvendo um banqueiro poderoso, um senador da República, uma família política e um filme com evidente potencial propagandístico e eleitoral.

O percurso do dinheiro é ainda mais preocupante. Segundo reportagens, recursos atribuídos a Vorcaro teriam sido enviados a um fundo sediado no Texas e relacionado ao financiamento de Dark Horse.

A Polícia Federal passou a investigar se parte desse dinheiro poderia ter sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos ou financiar ações contra autoridades brasileiras. Eduardo também teria aparecido em mensagens orientando que fosse remetido aos Estados Unidos o maior volume possível de recursos.

Nada disso permite afirmar, neste momento, que o dinheiro tenha sido usado na compra de um imóvel ou que tenha ocorrido desvio comprovado. Entretanto, os indícios divulgados justificam – e exigem – uma investigação rigorosa sobre a origem, o caminho e o destino de cada centavo.

As perguntas que permanecem sem resposta

As dúvidas tornam-se ainda mais relevantes porque Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos mantendo um padrão de vida elevado, em uma residência avaliada em aproximadamente R$ 6 milhões e anteriormente anunciada para aluguel por cerca de R$ 30 mil mensais.

A imprensa questionou como essas despesas estariam sendo financiadas. Isso não constitui prova de que os recursos destinados ao filme tenham custeado sua permanência no exterior, mas representa razão suficiente para que as autoridades investiguem as movimentações financeiras e para que a família Bolsonaro apresente explicações objetivas, documentadas e verificáveis.

Flávio Bolsonaro também não chega a esse episódio como personagem completamente estranho a investigações financeiras. Quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, foi denunciado pelo Ministério Público no caso das chamadas “rachadinhas”, juntamente com Fabrício Queiroz e outras pessoas.

A denúncia acabou arquivada depois que o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal anularam provas por questões relacionadas à competência judicial e à forma de obtenção de relatórios financeiros.

É preciso explicar corretamente o significado desse desfecho: o arquivamento impediu o prosseguimento da acusação, mas não correspondeu a um julgamento de mérito que examinasse e esclarecesse integralmente todas as movimentações financeiras apontadas na investigação.

Em outras palavras, o processo foi encerrado por questões jurídicas e processuais, e não porque todas as suspeitas tenham sido detalhadamente analisadas e consideradas inexistentes.

É por isso que a atual controvérsia em torno de Alexandre de Moraes não pode funcionar como cortina de fumaça. Flávio Bolsonaro tem o direito de contestar uma decisão judicial que considere abusiva. O que ele não pode é utilizar sua condição momentânea de vítima para fugir das explicações sobre Daniel Vorcaro, o Banco Master, os R$ 134 milhões negociados, os R$ 61 milhões que teriam sido transferidos, o fundo sediado no Texas e o possível envolvimento de Eduardo Bolsonaro na movimentação ou utilização desses recursos.

A bolha de sabão e o cavalo de Troia

A verdadeira “jogada de mestre” talvez seja exatamente esta: deslocar o debate do dinheiro para a visita ao pai; do Banco Master para Alexandre de Moraes; das transferências milionárias para uma narrativa emocional de perseguição familiar.

Em vez de explicar as relações financeiras e políticas que precisam ser investigadas, cria-se um novo espetáculo para ocupar o noticiário e mobilizar a militância.

A bolha de sabão pode ser grande, brilhante e atrair todas as câmeras. Mas, quando ela estourar, o Dark Horse continuará sendo o cavalo de Troia que introduziu o escândalo do Banco Master no coração da família Bolsonaro. E as perguntas sobre o dinheiro continuarão aguardando respostas.

O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.

Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.