Um “camaleão” chamado Silvio
Entre as muitas contribuições que Camaleão deu à toada de boi-bumbá, há uma que merece destaque: ele foi pioneiro nas gravações de toadas utilizando o charango.
Por Aldenor Ferreira* e Neil Armstrong**
Publicado em: 14/03/2026 às 00:00 | Atualizado em: 14/03/2026 às 08:19
No universo do boi-bumbá de Parintins, alguns personagens se confundem com a própria história dessa extraordinária manifestação cultural amazônica. Um deles chama-se Silvio, ou melhor, Camaleão. Personagem histórico do Boi-Bumbá Caprichoso e, por extensão, do próprio Festival Folclórico de Parintins.
Entre as muitas contribuições que Camaleão deu à toada de boi-bumbá, há uma que merece destaque especial: ele foi pioneiro nas gravações de toadas utilizando o charango. Pode parecer um mero detalhe técnico para quem olha de fora, mas quem conhece o Festival de Parintins sabe que não é.
O charango – instrumento de origem andina, pequeno no tamanho, mas enorme em expressividade – encontrou na toada um terreno fértil. E, quando esse encontro aconteceu, algo mudou no som do boi. A batida ganhou nova dinâmica, novas possibilidades melódicas, uma sonoridade que ajudou a construir uma identidade própria para a trilha sonora do Festival Folclórico de Parintins.
Fred e Silvio
Silvio não chegou ao charango por acaso. Aprendeu a tocá-lo com outro mestre, Fred Góes, responsável por levar o instrumento para Parintins e por plantá-lo no coração da música local. Como acontece em toda tradição viva, um mestre forma outro, que, por sua vez, forma novas gerações.
E é exatamente isso que Silvio Camaleão fez ao longo dos anos. Além de compositor de mão cheia, ele se tornou também formador de gerações. São dezenas, talvez centenas de jovens que aprenderam com ele os caminhos do charango e, junto com o instrumento, aprenderam também a respeitar a toada, a tradição e o espírito do Festival.
Nesse sentido, Silvio é mais que um músico. É um mestre, no sentido mais profundo da palavra. Torcedor apaixonado do boi Caprichoso, ele ajudou a construir parte da trilha sonora que embala a nação azul e branca há quatro décadas.
Além disso, sua importância ultrapassa qualquer rivalidade festiva. Porque, quando se fala de cultura popular verdadeira, o que está em jogo não é apenas um lado da arena, e sim a riqueza de uma tradição que pertence a todos.
Um militante
Por isso, ao olhar para a trajetória do nosso amigo Silvio Camaleão, não vemos apenas um artista do Caprichoso. Vemos um personagem histórico do próprio Festival de Parintins e, por extensão, da música popular brasileira. Sua trajetória também pode ser compreendida como uma forma de militância cultural.
Há quem milite em partidos, quem milite em sindicatos e quem milite em movimentos sociais. Silvio Camaleão, à sua maneira, milita há décadas em outra trincheira: a da toada de boi-bumbá. Milita com acordes, com melodias, com composições e, sobretudo, com generosidade ao ensinar.
Talvez por isso o apelido lhe caia tão bem. Não por mudar de cor, como sugere o animal que inspira esse nome, mas por ter sabido se adaptar ao tempo sem jamais abandonar a essência. Seguindo firme, como um guardião discreto de uma tradição que continua viva.
Considerações finais
E talvez seja exatamente por isso que, enquanto houver uma toada sendo tocada em Parintins, é muito provável que, em algum canto dessa história, esteja também o som do charango tocado por Silvio.
Para concluir, vamos parafrasear os poetas e compositores Adriano Aguiar, Geovane Bastos e Guto Kawakami e dizer: “Viva a cultura popular, viva o boi de Parintins”. Viva o boi Caprichoso, viva um “camaleão” chamado Silvio.
*Sociólogo.
**Maestro e produtor musical.
