Sistemas peritos: nossa confiança é uma aposta
As tragédias de Mariana e Brumadinho, em MG, mostraram como um sistema perito mal fiscalizado pode transformar tecnologia em desastre
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 27/09/2025 às 01:00 | Atualizado em: 27/09/2025 às 06:03
Vivemos cercados por especialistas. Confiamos, por exemplo, que o piloto levará o avião em segurança, que o médico saberá tratar uma infecção, que o mecânico não errou no freio do carro, que a enfermeira aplicou a dose certa ou que a companhia de água mantém processos de purificação sofisticados. Cada gesto cotidiano se apoia em algo que raramente enxergamos: os sistemas de confiança.
O sociólogo britânico Anthony Giddens formulou o conceito de sistemas peritos. Em sua obra As consequências da modernidade (1991), ele situa o conceito dentro de uma reflexão mais ampla sobre os sistemas abstratos. O autor explica: “os sistemas peritos são sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje”.
Na prática, não precisamos entender como funciona um motor a jato ou uma rede de abastecimento de água; basta acreditar que há profissionais qualificados cuidando disso. Essa crença move o cotidiano, mas também nos expõe a riscos.
Esses sistemas de eficiência técnica, ao mesmo tempo em que ampliam nossa segurança,também abrem a porta para novas vulnerabilidades. Um erro de cálculo, uma negligência, uma corrupção, e todo o edifício da confiança desmorona. A cada barragem que rompe, a cada ponte que cai, a cada trem que descarrila, percebemos que a confiança não é uma certeza, mas sim uma aposta.
Ulrich Beck e a sociedade de risco
É nesse ponto que a reflexão de Ulrich Beck se torna fundamental. Em sua obra clássica Sociedade de Risco: rumo a uma outra modernidade (1986), ele descreveu a modernidade como sociedade do risco: um tempo em que o progresso e a técnica não apenas solucionam problemas, mas também criam novos perigos, muitas vezes em escala global.
No Brasil, isso fica bem evidente. As tragédias de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, mostraram como um sistema perito mal fiscalizado pode transformar tecnologia em desastre humano e ambiental.
Em 2024, um avião da Voepass caiu em Vinhedo (SP) após uma falha no sistema de degelo ter sido relatada antes da decolagem, mas não registrada formalmente, sinal claro de problemas de manutenção e responsabilização técnica. Também em São Paulo, trens descarrilam, como no caso da Linha 4 – Amarela do Metrô ou de carga perto da Estação Brás, expondo vidas ao risco por falhas de infraestrutura, gestão técnica ou negligência.
Todavia, os riscos não estão apenas em grandes sistemas de transporte. Acidentes provocados por airbags cujo recall não foi efetivado demonstram que até produtos de uso cotidiano podem se tornar fontes de perigo quando os sistemas peritos deixam de operar com rigor.
E não se trata apenas de objetos ou serviços urbanos. As pontes que desabaram na BR-319, no Amazonas, em setembro e outubro de 2022, expõem a fragilidade de obras que deveriam garantir integração regional, mas acabaram gerando mortes e isolamento de comunidades.
Considerações finais
Esses episódios revelam que, entre nós, o risco é concreto e cotidiano. Não se trata apenas de confiar na ciência e na técnica, mas de cobrar dos governos e das empresas responsabilidade, fiscalização e investimento. De nada adianta termos profissionais bem formados – engenheiros, médicos, pilotos, entre outros – se os mecanismos institucionais de fiscalização e controle permanecerem frágeis.
Confiar é inevitável. Mas confiar sem questionar é perigoso. A aposta que fazemos todos os dias precisa vir acompanhada de crítica, vigilância e responsabilidade coletiva. Afinal, o que está em jogo não é apenas a eficiência de um sistema, mas a própria segurança da vida em sociedade.
