Cho Nan-Joo expõe crueldade do machismo no mercado de trabalho

Romance “Kim Jiyoung, nascida em 1982” revela a violência cotidiana que aprisiona as mulheres sob o patriarcado.

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 14/10/2025 às 20:16 | Atualizado em: 14/10/2025 às 20:17

O romance “Kim Jiyoung, nascida em 1982” (editora Intrínseca, trad. Alessandra Esterche), da sul-coreana Cho Nan-Joo, expõe aos leitores e às leitoras a crueldade das construções sociais, culturais e psicológicas que afeta as mulheres nas sociedades.

A romance tem como lócus a cidade de Seul, capital sul-coreana, no momento que o país asiático vivia a pujança do desenvolvimento das tecnologias da informação e da alta eletrônica, na década de 1980.

A Corea do Sul tem origem no fim da segunda guerra mundial, quando a península coreana do Sul e a do Norte apartaram-se sob a proteção militar dos EUA e da ex-União das Repúblicas Socialista Soviéticas (URSS), respectivamente.

A Corea antes unificada, por sua vez, é de origem feudal, cujo poder é estruturado na superioridade dos homens sobre as mulheres.

Cho Nan-Joo narra a trajetória de Kim Jiyoung, que certamente representa a grande maioria das mulheres do planeta que se importam com a discriminação de gênero no relacionamento entre pessoas.

Kim Jiyoung resiste ao machismo no lar, na escola, na faculdade, no trabalho, no casamento e nas relações sociais mais complexas, a começar pelo sacrifício pessoal que ela deveria se submeter para priorizar a educação escolar do irmão.

O que se observa em Kim Jiyoung é que por mais que ela lute contra os valores, papéis e comportamentos desiguais às mulheres, os ciclos do patriarcado se repetem em todos os níveis da sua vida.

Esvaem-se, por aí, os sonhos de uma sociedade mais justa no país que saiu da economia agrária para se tornar uma potência industrial e tecnológica, em menos de quatro décadas.

Cho Nan-Joo acentua que as inquietações e ações de Kim Jiyoung são permanentemente sabotadas pela prevalência dos valores do patriarcado estrutural e ideológico, às vezes sutis, às vezes violentos.

Aliás, o que não é novidade em nenhuma economia capitalista, que cultua o trabalho barato, a disciplina e a hierarquia como fatores necessários e vitais para se desenvolver.

Kim Jiyoung percebe-se na engrenagem e luta para dela sair, para não repetir a história dos seus pais e das pessoas que as cercam, mas só consegue pequenos avanços, como conseguir chegar à faculdade e a um emprego em uma pequena agência de publicidade.

Mas é tratada com inferioridade salarial, hierárquica e com direitos sociais limitados em relação aos dos homens, inclusive sem proteção à maternidade.

Ela é consciente de que se se casar e ter filhos terá que interromper a sua carreira de publicitária.

Isso porque as decepções e frustração com relacionamentos amorosos não eram poucos, eles sempre tropeçavam na indignidade dos homens com os quais havia se relacionado.

Mesmo assim achou que com John Daehyun, seu colega de trabalho na agência, seria diferente. Tratava-se de um homem cuidadoso e solidário que lhe inspirava confiança e respeito.

Casou-se com ele, mas logo teve que pedir a conta para cuidar da gestação da primeira criança e nunca mais retornou ao mercado publicitário, pois vieram mais dois filhos.

Jun Daehyun lhe prometera ficar perto das crianças, mas, para privilegiar a carreira, pouco tempo lhe restava para a família.

Kim Jiyoung se entregou a criação e educação das crianças e o tempo que sobrava para ela mesma era irrisório; e, para sobreviver, veio a se encaixar nas mesmas regras que pautaram a vida feudal dos seus ancestrais, enquanto a Corea do Sul capitalista vivia a revolução industrial que a tornou uma das baleis econômicas do mundo capitalista asiático.

O momento crucial e reflexivo do romance de Cho Nan-Joo pode estar nesse pequeno trecho:

“Jiyoung voltou à mesa com seus ombros curvados e, ao se sentar, disse:

“Eu estava sentido o ar mais fresco nas últimas manhãs, e hoje é baengno! Orvalho branco sobre o campo dourado, no dia de baengno o amanhecer é gelado”.

Daehyun riu da esposa, que falava como uma mulher muito mais velha.

“O que deu com você? Está parecendo sua mãe.

À essa altura Kim Jiyoung não habita mais o seu próprio corpo. O que John Daehyun observa é um corpo metamorfoseado, talvez o que ele sempre desejara.

Vale lembrar que, no mesmo período que Cho Nan-Joo desfia os impactos da globalização da economia capitalista na classe trabalhadora do seu país, milhares de mulheres amazonenses, a imensa maioria jovens, entram no mercado de trabalho da Zona Franca de Manaus.

As frustrações com as promessas de ascensão ao trabalho e mobilidade social não são menores aqui ou em outro qualquer lugar, principalmente quando se ouve que o trabalho comprado pelo capitalismo gera dignidade liberdade.

Às mulheres – notadamente às mulheres! – o mercado de trabalho é, acima de tudo, um desafio contra o preconceito, o desrespeito à dignidade humana e à violência de gênero.

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Foto: reprodução