Movimentos atípicos no Sudeste e Nordeste mudam cenário eleitoral
Sudeste e Nordeste registram oscilações eleitorais que ameaçam os tradicionais redutos de Lula e do bolsonarismo para o pleito presidencial.
Publicado em: 19/07/2026 às 12:23 | Atualizado em: 19/07/2026 às 12:23
A margem estreita que definiu a eleição presidencial de 2022 — pouco mais de 2,1 milhões de votos (1,8% do total) — deixou claro que, em um cenário de extrema polarização, variações regionais mínimas são capazes de ditar o vencedor.
Às vésperas de um novo teste nas urnas, o panorama político brasileiro apresenta movimentações atípicas em seus dois principais colégios eleitorais: o bolsonarismo perde fôlego no Sudeste, região onde predominou em 2022, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta percalços para sustentar sua popularidade histórica em redutos do Nordeste. Juntas, essas duas regiões concentram 70% do eleitorado nacional.
O recuo bolsonarista e o avanço de Lula no Sudeste
A região mais populosa do país, responsável por 42% dos eleitores brasileiros, tem demonstrado uma mudança de humor favorável ao atual governo.
De acordo com a pesquisa Genial/Quaest de julho de 2026, Lula cresceu 4 pontos no primeiro turno na região desde abril, alcançando 35% das intenções de voto, enquanto seu adversário direto, Flávio Bolsonaro, recuou 8 pontos, figurando com 28%.
A aprovação à gestão petista no Sudeste subiu 6 pontos no último trimestre, impulsionada em parte por um “pacote de bondades” federal que supera R$ 180 bilhões.
Rio de Janeiro
No berço político da família Bolsonaro, escândalos sucessivos enfraqueceram lideranças da direita.
Paralelamente, o favoritismo do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) ao governo fluminense tem funcionado como um forte palanque pró-Lula, cuja aprovação no estado saltou de 41,4% em abril para 47,9% em julho (Paraná Pesquisas).
Minas Gerais
Considerada o fiel da balança das eleições nacionais, o estado apresenta dificuldades para Flávio Bolsonaro devido à ausência de um palanque estadual definido e à concorrência direta pelo voto conservador com o presidenciável Romeu Zema (Novo).
São Paulo
Responsável por um quinto do eleitorado do país, o estado registra um empate técnico de 35% entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno (Datafolha de julho).
Embora o equilíbrio surpreenda o bolsonarismo em uma região historicamente antipetista, o desempenho de Flávio supera o de seu pai em agosto de 2022, quando Lula liderava por 13 pontos. Flávio conta com o apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito à reeleição, enquanto Lula escalou ex-ministros como Geraldo Alckmin (vice-presidente), Marina Silva e Simone Tebet para fortalecer seus palanques locais.
O fator determinante para a guinada no Sudeste parece residir no eleitor independente, grupo menos ideológico e focado em entregas práticas.
Entre esse eleitorado autodeclarado independente — do qual 45% vive no Sudeste —, Lula saltou de 26% para 40% em uma simulação de segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que caiu de 33% para 27% entre abril e julho.
Os sinais de alerta para o petismo no Nordeste
Se o Sudeste traz alívio para o governo, o Nordeste acende luzes de alerta.
Embora Lula mantenha uma liderança isolada de mais de 30 pontos no primeiro turno na região, os indicadores mostram que é o único território onde a desaprovação ao seu terceiro mandato cresceu continuamente desde abril, acompanhada de recuo na aprovação.
O tradicional apelo dos programas sociais já não apresenta a mesma eficiência na fidelização do voto nordestino, embora a região concentre 45% dos beneficiários do Bolsa Família.
Conforme dados da pesquisa BTG/Nexus, o apoio a Lula no primeiro turno entre os atendidos pelo programa caiu de 68% em junho para 58% em julho. No mesmo período, o suporte a Flávio Bolsonaro nesse grupo quase dobrou, passando de 13% para 25%.
Adicionalmente, a popularidade pessoal de Lula não tem se revertido automaticamente em votos para seus aliados nas disputas estaduais devido a desgastes locais:
Ceará e Bahia
O PT enfrenta dificuldades para manter sua hegemonia.
No Ceará, o governador Elmano de Freitas empata com Ciro Gomes (PSDB).
Na Bahia, quarto maior colégio eleitoral do país, o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil) lidera as intenções de voto para o governo.
O avanço de facções do narcotráfico e crises na segurança pública em ambos os estados alimentam o desejo de renovação política.
Desgaste Político
Em solo baiano, a campanha petista sofre o impacto da investigação da Polícia Federal contra o ex-líder do governo Jaques Wagner (PT-BA), suspeito de envolvimento em irregularidades ligadas ao Banco Master. De acordo com a Genial/Quaest, 62% dos eleitores locais apontam que o episódio prejudica a campanha de Lula.
Os dados estatísticos recentes desenham um cenário de acomodação de forças inédito para a corrida presidencial.
O enfraquecimento das bases tradicionais de apoio mútuo — com a direita cedendo terreno no Sudeste e a esquerda oscilando no Nordeste — sugere que as estratégias de campanha precisarão ir além dos discursos polarizados.
Embora as pesquisas reflitam apenas as tendências de momento da conjuntura política, o realinhamento desses polos regionais será o fator crítico a definir o vencedor na contagem voto a voto que se avizinha.
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Foto: Ricardo Stuckert/PR e Edilson Rodrigues/Agência Senado
