Ameaça ao bar do Armando mobiliza defesa da memória de Manaus
Disputa judicial sobre o imóvel onde funciona o tradicional bar reacende o debate sobre a preservação do centro histórico e de um dos maiores símbolos culturais da capital.
Adríssia Pinheiro, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 13/07/2026 às 09:53 | Atualizado em: 13/07/2026 às 10:24
O risco de o bar do Armando deixar o largo de São Sebastião provocou uma onda de mobilização entre artistas, escritores, jornalistas, músicos, intelectuais e frequentadores de Manaus. A ameaça de despejo do tradicional estabelecimento, reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Amazonas, transformou uma disputa judicial em um debate sobre a preservação da memória e da identidade cultural da cidade.
Há décadas, o bar faz parte da rotina do centro histórico e reúne moradores e turistas em um dos cartões-postais mais conhecidos da capital. O espaço também entrou para a história por abrigar o surgimento da banda da Bica, uma das mais tradicionais manifestações do carnaval amazonense.
A administração do estabelecimento convocou uma entrevista para esta segunda-feira (13), às 14h, no próprio bar. Durante o encontro, a família pretende apresentar detalhes da ação judicial, o andamento do processo e os impactos que uma eventual desocupação poderá causar ao centro histórico de Manaus.
Patrimônio
O bar do Armando foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Amazonas em 2015, durante o governo de José Melo, por meio de projeto de lei de autoria do então deputado estadual Bosco Saraiva.
Mais do que um ponto de encontro da boemia manauara, o estabelecimento tornou-se um espaço de convivência entre artistas, jornalistas, escritores, músicos, estudantes e turistas. O tradicional sanduíche de pernil e a proximidade com o teatro Amazonas ajudaram a consolidar o local como uma das referências culturais da capital.
Fundado pelo português Armando Dias Soares, que chegou a Manaus em 1953, o bar permanece sob administração da família desde a morte do fundador, em 2012. Atualmente, a gestão está sob responsabilidade de Ana Cláudia Soeiro Soares.
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Robério Braga diz que ocupação econômica salvou largo da decadência total
Debate
A repercussão do caso ultrapassou os limites da disputa judicial e trouxe novamente à discussão o futuro do centro histórico de Manaus.
Em entrevista concedida anteriormente ao BNC Amazonas, o ex-secretário de estado da cultura Robério Braga afirmou que a ocupação econômica do largo de São Sebastião foi determinante para preservar a região da degradação enfrentada por outras áreas históricas da cidade.
Segundo ele, bares, bancas, pequenos comércios, atividades culturais e moradores criaram um ambiente de convivência que fortaleceu o sentimento de pertencimento da população e valorizou o patrimônio urbano.
Durante mais de duas décadas à frente da Secretaria de Cultura do estado (SEC), Robério participou da restauração de diversos imóveis históricos da região, entre eles o próprio bar do Armando. Na avaliação do ex-secretário, preservar esses espaços significa manter viva a memória da cidade e estimular o uso permanente do centro histórico.
A possibilidade de o bar deixar o imóvel onde funciona há décadas gerou manifestações de apoio nas redes sociais e entre representantes do meio artístico e cultural.
Entre os frequentadores, também surgiram diferentes avaliações sobre o impasse.
Um frequentador do bar e integrante do meio cultural atribuiu o conflito às dificuldades de negociação envolvendo a renovação do contrato de locação.
“O prédio é dos capuchinhos. Sempre houve dificuldade na renovação do contrato de locação. O que deve estar acontecendo hoje é por conta da estupidez da Ana Cláudia, filha do Armando e dona do bar. Ela é grosseira, não sabe conversar, muito menos negociar.”
Enquanto parte dos internautas defende a permanência do estabelecimento por sua importância histórica e cultural, outros lembram que a discussão também envolve o direito de propriedade do imóvel.
O que dizem moradores históricos de Manaus
- • Jomar Fernandes, presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas
Um dos fundadores da banda da Bica e frequentador histórico do bar do Armando, Jomar Fernandes afirmou que a trajetória do estabelecimento se confunde com a história cultural de Manaus. Segundo ele, o espaço ajudou a consolidar o largo de São Sebastião como ponto de encontro de artistas, intelectuais e amantes da cultura popular.
Sobre a disputa judicial, o desembargador defendeu uma mobilização da sociedade.
“Penso que a sociedade deve se unir para fazer um apelo à cúria, mostrando que aquilo já é um patrimônio da comunidade de Manaus. Judicialmente, não há mais nada a ser feito.”
- • Serafim Corrêa, vice-governador do Amazonas
Frequentador do bar do Armando desde a década de 1980, Serafim Corrêa afirmou que o estabelecimento ganhou projeção ainda maior com a criação da banda da Bica e se tornou um dos principais pontos de encontro da vida cultural de Manaus.
Segundo ele, a disputa pelo imóvel não é recente. O vice-governador lembrou que uma tentativa de desocupação ocorreu há cerca de dez anos, mas foi revertida após uma articulação que contou com a participação do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto.
“Há dez anos conseguimos construir uma solução. Agora, o cenário é mais difícil porque o processo avançou.”
A expectativa agora recai sobre a coletiva desta segunda-feira, quando a administração do bar do Armando deverá detalhar o andamento da ação judicial e apresentar as medidas que pretende adotar para tentar manter o funcionamento de um dos espaços mais tradicionais da cultura manauara.
Foto: divulgação
