Herança política: as virtudes de Flávio Bolsonaro
Aldenor Ferreira elabora uma crítica à naturalização da herança política no Brasil e aos limites de uma trajetória sustentada mais pelo sobrenome do que por realizações públicas.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 11/04/2026 às 00:10 | Atualizado em: 10/04/2026 às 19:34
A única virtude de Flávio Bolsonaro é ser filho do Jair, nada mais. Ele é um exemplo claro de como opera a herança política no Brasil.
Dito assim, de forma direta, pode parecer uma provocação gratuita. No entanto, não é. Trata-se, antes de tudo, de uma constatação incômoda sobre um tipo de trajetória política que, infelizmente, não é incomum no Brasil: aquela que não se constrói por mérito próprio, por obra realizada ou por contribuição efetiva à vida pública, mas, sobretudo, por herança.
Nesse sentido, Flávio Bolsonaro é um produto típico desse modelo. Sua presença na política não decorre de um projeto, de uma atuação destacada ou de uma liderança reconhecida pela sociedade. Ao contrário, sua trajetória está profundamente vinculada ao capital político herdado do pai. Em outras palavras, é a extensão de um sobrenome que, por si só, abriu portas, garantiu visibilidade e sustentou uma carreira que dificilmente existiria sob outras circunstâncias.
É importante destacar, contudo, que não se trata aqui de uma crítica à política como profissão, afinal, viver da política não é, em si, um problema. O ponto central, portanto, está na ausência de entrega pública. Ou seja, o problema emerge quando o exercício do mandato não se traduz em propostas relevantes, em iniciativas consistentes ou em contribuições concretas para a sociedade. E, nesse aspecto, o desempenho de Flávio Bolsonaro é, no mínimo, questionável.
O mandato de senador
Seu mandato no Senado carece de protagonismo legislativo significativo. De fato, não há, até aqui, uma obra política que o destaque como formulador, como articulador ou como alguém capaz de influenciar positivamente o debate público nacional. Além disso, sua atuação, em grande medida, tem sido reativa, pautada por agendas de confronto e alinhada a um campo político que frequentemente tensiona os limites da institucionalidade democrática.
Esse ponto é central. Não estamos falando apenas de desempenho, mas de posicionamento. Flávio Bolsonaro, assim como o núcleo político ao qual pertence, flerta reiteradamente com discursos autoritários, com narrativas golpistas e com a deslegitimação das instituições. Trata-se de uma prática que, longe de fortalecer a democracia, contribui para corroer suas bases.
Ademais, sua trajetória política é acompanhada por uma série de controvérsias e suspeitas que, embora tratadas no âmbito judicial, permanecem como marcas públicas de sua atuação. Vale lembrar que, em democracias maduras, a ética na vida pública não é um detalhe, é um requisito fundamental. Assim, a recorrência de escândalos fragiliza qualquer pretensão de legitimidade política sustentada exclusivamente pelo voto.
Por outro lado, talvez o aspecto mais problemático dessa trajetória não esteja apenas no indivíduo, mas no padrão que ela representa. A ideia de que a política pode ser transmitida como herança familiar – quase como um patrimônio privado – é incompatível com os princípios republicanos. Afinal, em uma república, cargos públicos não pertencem a famílias; pertencem ao povo.
Quando isso ocorre, ou seja, quando a política se transforma em dinastia, perde-se o sentido do mérito, da competição democrática e da renovação de ideias. Além disso, abre-se espaço para a reprodução de privilégios e para a perpetuação de projetos que não necessariamente correspondem ao interesse coletivo.
Considerações finais
Diante disso, a “virtude” de Flávio Bolsonaro revela, na verdade, um problema estrutural: a naturalização da herança política como critério de ascensão. E isso, sem dúvida, deveria nos preocupar, independentemente de posições ideológicas.
Em síntese, a democracia não se sustenta em sobrenomes. Sustenta-se em ideias, em trabalho público de qualidade e em compromisso com a sociedade. E isso, definitivamente, não se herda.
*O autor é sociólogo
Arte: Gilmal
