A conta do supermercado não é só do presidente, mas sobretudo do governador
Entenda por que o peso dos impostos no consumo cotidiano recai sobre os estados, enquanto o discurso político tenta empurrar a culpa para Brasília.
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 01/04/2026 às 10:43 | Atualizado em: 01/04/2026 às 10:43
Todo mês, quando o brasileiro vai ao supermercado, à farmácia ou ao posto de gasolina, uma reclamação se repete: “não dá mais, está tudo caro por causa dos impostos”. Em seguida, quase como um reflexo condicionado, vem a acusação: “é culpa do governo federal”.
Mas os números contam uma história diferente.
O que muitos eleitores — especialmente aqueles alinhados à direita bolsonarista — desconhecem é que a maior parte da carga tributária incidente sobre os produtos que consomem diariamente não tem como destino a União, mas sim os cofres dos governos estaduais e, em menor medida, das prefeituras.
O imposto que pesa no bolso é estadual.
O protagonista dessa história chama-se ICMS — Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços. Ele é de competência exclusiva dos estados e do Distrito Federal. É o ICMS que incide sobre:
· – Alimentos e bebidas no supermercado
· – Remédios nas farmácias
· – Roupas e calçados
· – Energia elétrica
· – Combustíveis (gasolina, diesel, etanol)
· – Comunicações (telefonia, internet)
O caso dos combustíveis: a conta que não fecha
Vamos pegar um exemplo concreto que todo eleitor conhece bem: o preço da gasolina. A composição tributária na bomba mostra com clareza onde está o maior peso.
De acordo com dados da Fecombustíveis (Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes), a carga tributária média sobre a gasolina no Brasil é de cerca de 39% do preço final.
Dessa fatia, a divisão é a seguinte :
Tributo – Competência – Participação no preço final
- – ICMS … estadual … 27,1%
– PIS/Cofins … federal … 10,6%
– Cide … federal … 1,3%
Ou seja: do imposto total pago na gasolina, mais de dois terços vão para o governo do seu estado. A União fica com cerca de um terço.
Em valores absolutos, a partir de 2026, o ICMS sobre a gasolina passou a ser de R$ 1,57 por litro, enquanto o diesel tem ICMS de R$ 1,17 por litro.
Já os tributos federais (PIS/Cofins e Cide) somam cerca de R$ 0,74 por litro — menos da metade do que arrecada o estado.
O próprio setor confirma: segundo a Petrobrás, o ICMS corresponde a cerca de 23,7% da composição do preço da gasolina, enquanto os tributos federais ficam com aproximadamente 11,9% .
E nos outros produtos?
No supermercado, na farmácia e na loja de roupas, a lógica se repete. O ICMS estadual incide sobre a grande maioria dos produtos de consumo. Em muitos estados, as alíquotas variam entre 17% e 20% sobre o valor das mercadorias.
O governo federal também tributa o consumo, por meio do PIS, da Cofins e do IPI. Mas esses tributos incidem principalmente sobre a indústria e o atacado, e sua participação no preço final dos itens essenciais é menor do que a do ICMS.
A conta que não fecha no discurso político
O eleitor de direita que acusa o governo federal pela carga tributária reproduz, muitas vezes sem saber, uma narrativa conveniente para os governadores — muitos deles do mesmo espectro político que ele apoia.
Ao transferir toda a responsabilidade para Brasília, esse discurso isenta os chefes dos governos estaduais de explicarem por que mantêm alíquotas elevadas de ICMS, por que não utilizam mecanismos de redução do imposto sobre itens essenciais e por que a conta do supermercado continua pesando no fim do mês.
É uma estratégia política que simplifica demais um problema complexo para direcionar a culpa a um único alvo.
O Brasil tributa errado, não apenas muito
Não se trata de defender o governo federal nem de isentá-lo de responsabilidade. A carga tributária brasileira é alta — atingiu 32,32% do PIB em 2024 — e o problema vai além do tamanho do Estado.
O cerne da questão é outro: o Brasil tributa de forma regressiva.
Países desenvolvidos concentram a arrecadação sobre a renda e o patrimônio — quem ganha mais, paga mais. No Brasil, a maior fatia da arrecadação recai sobre o consumo. Isso significa que o trabalhador que ganha um salário mínimo e precisa gastar quase tudo para sobreviver acaba pagando uma alíquota efetiva muito maior que o milionário, cuja renda é pouco tributada e cujos lucros e dividendos sequer sofrem incidência do Imposto de Renda.
Dados mostram que os impostos sobre o consumo representam cerca de 43,5% de toda a arrecadação do país, enquanto os impostos sobre a renda somam aproximadamente 30% e os sobre o patrimônio não chegam a 3%.
O que está em jogo
O discurso que coloca toda a culpa da carga tributária no governo federal tem um efeito prático: desvia o foco da discussão necessária sobre a reforma tributária, sobre a necessidade de tributar mais a renda e o patrimônio, e sobre o papel dos governadores na definição das alíquotas que incidem sobre o consumo.
Enquanto o eleitor continuar acreditando que o presidente é o único responsável pelo imposto do pão, do remédio e da gasolina, continuará votando para governador — muitas vezes no mesmo campo político — quem mantém a conta do supermercado alta.
A democracia exige que o cidadão saiba para onde realmente vai o dinheiro dos seus impostos. E exige também que ele cobre de cada ente federativo aquilo que é de sua responsabilidade.
Na próxima vez que você fechar o carrinho do supermercado ou encher o tanque do carro, lembre-se: a maior parte daquele tributo não foi para Brasília. Ficou no estado. E quem define sua alíquota tem nome: é o governador.
*O autor é é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Ilustração gerada por IA
