Bolsonarismo: um projeto de traição nacional
Para Aldenor Ferreira, o bolsonarismo mobiliza o discurso patriótico, mas suas ações revelam um padrão consistente de enfraquecimento da soberania nacional.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 28/03/2026 às 00:00 | Atualizado em: 28/03/2026 às 06:04
Há palavras que não podem ser usadas com leviandade. “Traição” é uma delas. Trata-se de um termo grave, que, na tradição política, está associado à ruptura deliberada com os interesses fundamentais de uma nação. Não é divergência, não é erro de governo, não é incompetência. Traição é escolha. É justamente nesse terreno que o bolsonarismo precisa ser situado.
Ao longo dos últimos anos, o Brasil assistiu a uma sequência de decisões e posicionamentos que, longe de expressarem um projeto de desenvolvimento nacional, caminharam na direção oposta: a fragilização de estruturas estratégicas, a entrega de ativos fundamentais e a subordinação explícita a interesses estrangeiros.
A perda de soberania energética
Tomemos alguns exemplos. A venda de refinarias da Petrobras, muitas vezes a preços questionáveis e em condições que reduziram a capacidade de refino nacional, não pode ser tratada como simples política econômica.
Na verdade, trata-se de abrir mão de um setor central para a soberania energética de um país continental como o Brasil. O mesmo vale para o desmonte da própria Petrobras enquanto empresa integrada, uma das poucas capazes de articular exploração, refino e distribuição em escala nacional.
Na mesma linha, a privatização da Eletrobras, conduzida sob forte controvérsia e com avaliações amplamente criticadas, implicou a perda de controle sobre um setor igualmente estratégico: a geração e distribuição de energia elétrica. Energia, petróleo e infraestrutura não são mercadorias quaisquer. São pilares da autonomia nacional.
A venda da BR-Distribuidora reforça esse movimento. Ao fragmentar cadeias produtivas e enfraquecer empresas nacionais, o que se produz não é eficiência, mas dependência. Mas talvez o aspecto mais grave não esteja apenas nas decisões econômicas, e sim no comportamento político.
Sanções contra o Brasil
Ora, senhoras e senhores, defender que outra nação atue militarmente em águas brasileiras não é apenas absurdo, mas, sim, a negação do princípio mais básico da soberania. Esses episódios não são isolados. Eles revelam um padrão.
Nesse contexto, quando um deputado federal articula, no exterior, medidas que possam resultar em sanções contra o próprio país, estamos diante de algo que ultrapassa qualquer disputa interna. O mesmo se aplica a declarações que sugerem, ainda que de forma irresponsável, a intervenção de forças estrangeiras em território nacional.
O bolsonarismo construiu uma retórica agressiva em nome da pátria, mas, na prática, operou em sentido inverso. Longe de fortalecer o Estado nacional, fragilizou-o. Em lugar de proteger seus ativos estratégicos, promoveu sua dilapidação. E, ao invés de afirmar a autonomia do país, flertou com sua submissão.
É aqui que a análise sociológica se torna necessária. Não estamos diante apenas de um conjunto de decisões equivocadas, mas de um projeto político que redefine o próprio sentido de nação. Um projeto que substitui a ideia de soberania por alinhamento automático, que troca o interesse público por agendas externas e que transforma o patriotismo em slogan vazio.
Considerações finais
Nesse sentido, o bolsonarismo não é apenas um movimento conservador, como muitos insistem em afirmar. Tampouco se trata de liberalismo econômico levado às últimas consequências. O que se observa é outra coisa: uma forma de poder que, ao mesmo tempo em que mobiliza símbolos nacionais, atua concretamente contra eles.
Há, portanto, uma contradição central. Agita-se a bandeira, mas desmonta-se o país. Invoca-se a pátria, ao mesmo tempo em que se entregam seus instrumentos de autonomia. E, sob o discurso da soberania, pratica-se a dependência.
E talvez seja justamente por isso que a palavra “traição” deixe de ser exagero e passe a ser diagnóstico. Porque, no limite, trair não é apenas agir contra alguém, é fazê-lo enquanto se afirma, em voz alta, estar ao seu lado.
*O autor é sociólogo
Arte: Gilmal
