“Soy loco por ti América”
A América estava mergulhada na escuridão, usada pelo neoimperialismo de extrema direita dos EUA para violar leis internacionais
Por Walmir de Albuquerque Barbosa
Publicado em: 05/01/2026 às 19:21 | Atualizado em: 05/01/2026 às 19:21
A canção de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Capinan (1968) que tomamos como título da crônica é uma crítica à repressão no Brasil e em outros países da América nos estertores da Guerra Fria e teve o condão de tornar-se o hino das esquerdas para perpetuar Che Guevara como líder socialista da América Latina.
Os autores driblaram a censura brasileira ao referir-se ao guerrilheiro, na letra da canção, como “el nombre del hombre muerto” (o nome do homem morto), além da referência ao líder cubano José Marti.
Marcou, também, o momento histórico sombrio da América Latica afundada em ditaduras, autoritarismos e barbáries, promovidas ou apoiadas pelo império americano com sua CIA, em conluio com os generais fascistas e as elites que temiam as transformações sociais que solapassem os seus privilégios.
A América estava mergulhada na escuridão, a mesma escuridão que cobriu os céus da Venezuela para o neoimperialismo de extrema direita americano infringir as leis internacionais e conspurcar todos os princípios da convivência entre nações soberanas.
Maduro é um detalhe, o imperialismo e o desrespeito à soberania das nações para confiscar-lhes riquezas que não lhes pertencem são o problema principal. Houve crime!
Donald Trump, presidente americano, não inova, apenas retoma o que há de mais insano de seus antecessores, que acreditam na predestinação da América do Norte – o tal “destino manifesto”, que mais tarde (início do século 19) chamou-se doutrina Monroe e, agora o imperador de plantão tenta emplacar como “doutrina Donroe”, para que se cumpra a máxima de que a repetição da tragédia seja como farsa.
Maduro e esposa foram sequestrados após um bombardeio pelo arsenal de guerra americano e pela ação de uma tropa de elite e prováveis traidores de plantão, como soe acontecer.
Estão presos, acusados de “narcoterrorismo”, crime inventado pela extrema-direita e não aceito na criminologia da maioria dos estados democráticos.
Pobre Venezuela: não lhe bastava ser o berço mais próspero dos caudilhos das Américas, que lhes roubaram a seiva democrática por mais de um século; dona de uma elite branca, estúpida e extremamente cruel, que se arvora sempre do comando político e econômico da nação; agora, aqueles que lideraram os movimentos reformistas, prometendo por fim às desigualdades, por apego ao poder, tornaram-se miseráveis algozes do povo, iguais aos que haviam substituído.
A revolução bolivariana enganou o povo. Hugo Chávez, para manter-se no poder, desde 1998, quando eleito pela primeira vez, foi permissivo a um generalato corrupto que o cercou muito tempo, assenhorou-se das instituições civis, enfronhou-se nas atividades econômicas e será difícil negar um envolvimento com o narcotráfico, dando margem para as acusações que lhes são feitas.
Maduro, por sua vez, ao suceder Chávez após a sua morte em 2013, foi aprofundando a destruição de todas as instituições que davam sustentação do Estado venezuelano: armou as milícias de apoio do governo; aparelhou a Justiça demitindo, prendendo e substituindo juízes; fechou o Congresso e o reabriu após aniquilar com prisões, torturas, mortes e banimento toda a oposição a seu governo; fraudou eleições e tornou-se um tirano do seu próprio povo que, sem alternativas, espalhou-se como imigrante por todos os países das Américas (cerca de 8 milhões).
Entre os que ficaram, 53% da população mergulha na pobreza e na miséria. Além do desamparo na garantia de direitos fundamentais.
Isolada do concerto mundial das nações, a Venezuela, em sendo detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, tornou-se presa fácil, por obra e graça de seu ditador e do governo Trump, que vinha mirando e escolhendo um porto seguro para dizer a toda a América Latina que ela é o seu quintal e fará tudo que ele quiser.
Não será bem assim, mas a declaração de terrorismo de Estado e instabilidade internacional criarão um inferno para todos.
Os congêneres de extrema-direita não venezuelana veem nesse episódio uma “porta da esperança” para seus intuitos e os venezuelanos, que comemoram uma “libertação”, não sabem do seu amanhã.
Todos estão com as “barbas de molho” enquanto as riquezas da Venezuela estão sendo divididas entre os vencedores!
O autor é jornalista profissional
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
