A Zona Franca de Manaus sob a ótica dos patrões

Em resposta ao empresariado, o autor aponta que a desigualdade na capital do Amazonas não é mero problema político, mas sim resultado da relação capital/trabalho no polo industrial, onde o trabalhador recebe o equivalente a poucas horas de sua jornada.

A Zona Franca de Manaus sob a ótica dos patrões

Por Lúcio Carril*

Publicado em: 11/12/2025 às 12:36 | Atualizado em: 11/12/2025 às 19:16

O patronato nem esperou o temporal de domingo passado para retrucar meu artigo sobre as disparidades entre o faturamento do distrito industrial e a pobreza imperante na capital do Amazonas. Tratou de entrar na microeconomia e na negação dos números para tentar camuflar o óbvio.

Como estamos tratando de concepção, dispenso a fulanização, pois a ideia de um empresário (capitalista) reflete o pensamento dominante do sistema econômico.

Para sair do debate sobre a relação capital/trabalho, a escolha é e sempre foi pelo caminho da lamúria com os gastos com salários, os custos de operação, a logística, etc. Uma conversa pequena para não encarar a questão fundamental.

Um desses empresários chega a dizer que a média salarial do polo industrial de Manaus é de 3.400 reais e esse valor “situa-se entre os setores que melhor remuneram na economia amazonense”.

Uma comparação rasa, tendo como referência a mais-valia absoluta, como aquela que domina o comércio varejista de Manaus.

Pouco mais de dois salários mínimos como sinal de “bom pagamento” é a cara da exploração exacerbada e cínica.

Ainda no artigo publicado pelo patrão, para tentar justificar o “boom” no faturamento da indústria da ZFM em 2025 e a injustificável pobreza de mais de 60% da população manauara, o problema social é jogado para a política. Não acho que seja por ignorância, mas se trata de um recurso discursivo para encobrir a desigualdade provocada por relações profundas de exploração do trabalhador do distrito industrial e de outros ramos da economia amazonense.

O problema é econômico. Isso está na economia clássica, desde Adam Smith. O empresário sabe disso. Está na relação capital/trabalho, no lucro excessivo obtido a partir da força de trabalho do operário e de todo trabalhador. A política é um aporte do sistema econômico, pronto para lhe oferecer benesses, incentivos e isenções fiscais.

Na visão capitalista clássica é assim, mas o sistema não foi criado para se manter imutável. O capital tem que ter outras funções, que não seja a da busca tresloucada pelo lucro, senão “um dia a cada cai”.

Outro empresário, este do ramo da manipulação digital de dados, enveredou pelo caminho que já percorre há décadas e que lhe rendeu fortuna: Negar as estatísticas e manipular os números.

Não fui eu que disse que Manaus tem o pior rendimento familiar per capita entre todas as capitais do Brasil, foi o IBGE e com farta divulgação pela mídia.

Também não fui eu que disse que Manaus tem a 4ª e a 7ª maiores favelas do país, foi o censo 2022 do IBGE.

Cidade de Deus/Alfredo Nascimento tem 55.851 moradores e a comunidade São Lucas tem 53.674 moradores.

A Rocinha, no Rio de Janeiro, é a maior do Brasil, com 72.021 moradores. Não sou eu que tenho o hábito de deformar estatísticas.

Os resultados do censo 2022, do IBGE, continuam sendo publicados. Não é exclusividade minha conhecer os números, mas não me venham negar os dados, numa tentativa pueril de camuflar um problema que é resultado da extrema desigualdade social no país, provocada pela concentração de renda.

Sei que faturamento não é lucro, mas não me venham dizer que dos 200 bilhões faturados pelas empresas do distrito industrial de Manaus, poucas centenas de patrões não vão embolsar pelo menos 10% desse valor, ou seja, 20 bilhões de reais.

A ótica do patronato é aquela de que emprego é dádiva do empresariado e não um recurso para lhe gerar lucro.

A oferta de 130 mil empregos, com salário médio de 3.400 reais, e o faturamento de mais de 200 bilhões de reais das empresas é a prova de que o trabalhador fica apenas com o valor de duas ou três horas trabalhadas por dia. O restante das horas (5,6 horas) vira lucro para o dono da indústria.

Isso é exploração extrema. Bem que o trabalhador poderia receber um salário por mais horas trabalhadas, numa jornada 5×2, no mínimo.

Concluo, agradecendo as inúmeras mensagens, comentários em redes sociais, ligações que recebi me parabenizando pelo texto corajoso de meter o dedo na ferida, já que políticos, acadêmicos e líderes sindicais permanecem calados, sem discutir qual modelo econômico pode gerar mais qualidade de vida para nossa gente.

Do jeito que está, o polo industrial de Manaus apenas reproduz pobreza.

*O autor é sociólogo.

Foto: divulgação