O império americano: de doutrina a doutrina

A evolução das doutrinas Monroe e Truman culmina no "Corolário Trump", que resgata a coerção regional para conter China e Rússia, perpetuando o intervencionismo como pilar da hegemonia dos EUA no hemisfério.

A sombra de Washington sobre o Amazonas

Por Plínio César Coelho*

Publicado em: 09/12/2025 às 11:02 | Atualizado em: 09/12/2025 às 11:02

A política externa dos Estados Unidos tem sido estruturada em torno de uma sucessão de “doutrinas” que serviram para expandir e justificar sua esfera de influência, traçando a evolução do país de uma nação focada em sua região para uma potência hegemônica global.

O entendimento dessa trajetória é essencial para analisar o intervencionismo americano contemporâneo.

Essa jornada começou em 1823, quando a doutrina Monroe estabeleceu que o hemisfério ocidental não estaria mais aberto à colonização ou intervenção europeia, defendendo a autonomia das novas repúblicas latino-americanas e, ao mesmo tempo, estabelecendo a primazia dos EUA na região.

Essa doutrina, inicialmente de caráter defensivo, foi drasticamente alterada pelo corolário Roosevelt de 1904.

Theodore Roosevelt transformou a política em um mandato para a intervenção, arrogando aos EUA o direito de agir como “polícia internacional” na América Latina, a fim de garantir a ordem e evitar que nações europeias credoras interviessem, demonstrando uma expansão do poder americano para a coerção regional.

O salto conceitual seguinte ocorreu em 1947, com a doutrina Truman. Ela expandiu a lógica de intervenção para um contexto global e ideológico, fornecendo assistência a nações sob ameaça de forças autoritárias, notadamente o comunismo soviético.

O foco inicial foi na Europa (Grécia e Turquia), mas seu princípio de contenção se tornou a base para a política externa global dos EUA, justificando mais tarde o apoio a regimes anticomunistas e intervenções indiretas na América Latina, como parte da Guerra Fria.

O sentido de a doutrina Truman ser referida como um corolário é o de que ela foi um desdobramento lógico desse intervencionismo, movendo a justificação da intervenção de uma questão regional (corolário Roosevelt) para uma questão global (contenção do comunismo).

Hoje, a política de Donald Trump em relação à América Latina pode ser vista como um novo corolário, pois retoma o método coercitivo regional do corolário Roosevelt e o aplica à contenção de novas ameaças globais que definiram a doutrina Truman, substituindo o comunismo soviético pela influência geopolítica e econômica da China e da Rússia, e pela segurança de fronteira.

As ações de Trump manifestam um intervencionismo transacional focado na contenção de rivais de e na garantia da segurança de fronteira, muitas vezes por meio de pressão econômica e sanções.

O caso da Venezuela é a aplicação mais direta da lógica da contenção.

A política de “pressão máxima”, sanções e ameaças de intervenção teve como justificativa pública a restauração da democracia e o combate ao narcotráfico.

No entanto, a prioridade geopolítica é dupla: a necessidade de eliminar a forte presença russa e chinesa no país, aliada ao interesse subjacente em controlar ou influenciar o destino das vastas reservas de petróleo venezuelanas, um ativo estratégico global que os EUA visam impedir que caia sob controle total de potências rivais.

O México se tornou o foco central da segurança interna americana, onde a ameaça de tarifas e o foco na construção de um muro demonstraram a coerção da soberania mexicana para que o país atuasse como um “Estado tampão” no controle de imigração e narcotráfico, uma forma de intervenção que eleva as prioridades domésticas americanas acima da autonomia vizinha.

No Brasil, a intervenção se manifestou por meio da pressão econômica e de coerção de alinhamento em áreas estratégicas.

Além da ameaça de tarifas comerciais, houve a exigência para que o país excluísse a tecnologia 5G da Huawei (China) e oposição a movimentos como o uso de moedas locais no comércio sino-brasileiro, que ameaçam o domínio global do dólar.

Um ponto adicional de contenção foi a disputa pelo acesso às reservas de terras raras, minerais essenciais para a tecnologia avançada.

De forma inédita, o corolário Trump também utilizou sanções diretas e restrições de visto a ministros de Estado e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), uma tática cirúrgica destinada a influenciar as decisões políticas e judiciais internas do país.

Por fim, a Colômbia, um aliado histórico, foi tratada sob a mesma lógica transacional, sendo pressionada com a ameaça de cortes de ajuda para garantir obediência irrestrita aos objetivos de segurança, como o combate ao narcotráfico, ilustrando que a parceria é condicionada à conformidade imediata com os interesses de Washington.

Em suma, o corolário Trump sintetiza as doutrinas anteriores.

Ele resgata o foco regional e a coerção do corolário Roosevelt para aplicá-lo à nova ameaça geopolítica do século 21 – a contenção da China e da Rússia – perpetuando a lógica intervencionista globalizada pela doutrina Truman.

As ações demonstram que, embora a ameaça tenha mudado da ideologia para a competição de poder e influência econômica, a premissa fundamental do império americano permanece a mesma: a intervenção contínua e adaptável para garantir sua proeminência no hemisfério .

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

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