Rainha de povo Congo diz que saberes indígenas podem salvar o planeta
Ela encerrou a sua agenda em Manaus no dia 1⁰ de dezembro, em um desfile de moda indígena e exposição de pinturas de artistas com deficiência visual
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 02/12/2025 às 18:48 | Atualizado em: 03/12/2025 às 08:32
A rainha de Luba, Diambi Kabatusuila, disse em Manaus (AM) que a salvação do planeta da provável destruição pela crise climática no reconhecimento dos saberes indígenas como compatíveis ao equilíbrio ecológico.
O reino de Luba, localizado na República Democrática do Congo, na África Central, é habitado pelo povo bakwa luntu.
Na outra ponta do problema, segundo ela, está a cultural do modo de produção capitalista, cuja origem é Europa, que tem a natureza como simples objeto a ser explorado.
Ela encerrou a sua agenda em Manaus ontem (1⁰ de dezembro), em um desfile de moda indígena e exposição de pinturas de artistas com deficiência visual, no Salão Verde da Valer Teatro, no largo de São Sebastião.
Dede hoje até o dia quarta-feira, ela visitará lugares turísticos da região metropolitana de Manaus e Parintins (AM).

Rainha militante
Diambi é reconhecida, mundialmente, pela sua militância na ecologia, no reconhecimento político e social dos povos originários, e na defesa e empoderamento das mulheres.
Ela afirmou que, com essa viagem, reforçou sua compreensão que a Amazônia e o Congo compartilham ambientes e povos ameaçados, secularmente, pela visão consumista europeia (colonizadora) que leva à destruição da Terra, sem considerá-la a casa comum da vida.
E, para ela, os povos que vivem nas regiões de florestas, com os da Amazônia e os da África Central, fazem o contraponto da prática e do pensamento destrutivos. Por isso, a rainha propõe que a sabedoria ancestral dos povos indígenas e africanos, baseada no respeito e na reverência à natureza, é essencial para se construir um futuro mais equilibrado e justo. Eles incluem o respeito mútuo, a reverência pela natureza (animais, árvores, água) como criação divina, e uma vida espiritual forte e afetiva, que entende o mundo de forma não apenas intelectual.
Essas e outras questões são destaques da entrevista que Diambi Kabatusuila concedeu a este BNC Amazonas, no Palácio das Artes, na Praça Dom Pedro I, no centro histórico de Manaus. O diálogo exclusivo foi articulado com a sua assessoria de imprensa no Brasil e em Nova Yorque.
Confira a entrevista:
Faça um balanço das suas impressões sobre do Brasil.
Meu povo [Bakwa Luntu] vive em floresta, idêntico a muitos indígenas daqui, porque somos indígenas da África. Por isso, o Brasil é um país muito especial para mim. Aqui tem experiência da gente que vem da África também.
O Brasil é construído com a mistura de culturas indígenas, europeias e africanas. E a influência da África é muito grande em toda parte deste país. Não somente como força física, como no trabalhar com o café e em outras culturas, mas, também, com participação intelectual para formar um país com capacidade econômico-social mais rapidamente.
E quando venho ao Brasil, abraço a outra parte da minha própria identidade, porque aqui há muita gente da África Central, do Congo. Essa é a parte da minha família. A viagem é uma maneira de fazer uma reconciliação do povo africano do continente com o povo africano daqui.
Identidade
Venho aqui para descobrir parte da minha história e mostrar para vocês [brasileiros] a outra parte da sua história, porque é difícil separar a influência da cultura africana de todo o Brasil. O Brasil é uma expressão coletiva. É difícil para o povo indígena e para o povo europeu estabelecer diferenças na maneira de se relacionar [cultural e economicamente] com a África.
É importante encontrar-me com as diferentes culturas, uma vez que, em outro nível, somos uma família de seres humanos. E aqui tem muita experiência, sabedoria e conhecimento que são importantes para mim, pois falam-me da proteção e preservação da natureza e do empoderamento da mulher.
Experiência de povos indígenas
Aqui, quando me encontro com povo indígena, entendo que ele tem a riqueza da experiência dessa terra e, também, tem um carinho para tudo que é vivo na natureza. Esse entendimento devemos incluir em nossa maneira de pensar, para construirmos um futuro melhor, não somente para o Brasil, mas para cada um de nós. E é normal que eu venha aqui com muita reverência, a fim de descobrir a outra parte da minha humanidade.
É a primeira vez estou em Manaus, a primeira vez nessa parte do mundo. Estou muito emocionada, pois essa região se parece muito com o Congo: o meio ambiente, a floresta e as culturas.
Quando estive no mercado [mercado Adolpho Lisboa], vi coisas parecidas ou iguais às que existem na África. Iguais às que existem no Congo.
Esperança
A saber que há coisas parecidas ou comuns a cada ser humano de nosso planeta, me encho de esperança. Aqui se tem a preservação como cultura fundamental, cuja prioridade é o bem-viver coletivo. Descobri muitas coisas. Já falei com pessoas da Assembleia [Aleam], com o secretário de turismo e fui ao mercado, comi um pescado local. Foi uma experiência maravilhosa.
Em relação à diversidade cultural da sua região e a da Amazônia. Aqui existem ao menos 180 povos indígenas e 90 línguas ainda faladas …
…Isso é uma coisa maravilhosa e bela! Como disse, parece muito com o Congo. Em Congo, temos dois mil povos e duas mil línguas. Sem diversidade não há vida, saúde, equilíbrio ou harmonia. O caminho é a união, que não significa uniformidade, mas sim o compartilhar das diferenças na construção de sociedades resiliente e melhores para todos.
Apesar das diferentes expressões culturais, existem princípios fundamentais que são os mesmos entre os povos indígenas da Amazônia e os povos do Congo. Estes incluem o respeito mútuo, a reverência pela natureza (animais, árvores, água) como criação divina, e uma vida espiritual forte e afetiva, que entende o mundo de forma não apenas intelectual e racional.
Por que a sabedoria indígena não é levada em consideração nos fóruns que discutem a crise climática em nível mundial?
Para solucionar a crise ambiental, é crucial incluir a sabedoria dos povos que conhecem o funcionamento da natureza e possuem uma cultura de respeito e reverência por ela. Eventos como a COP [Conferência multilateral do Clima] deveriam ser mais receptivos a essas ideias. É preciso mudar a narrativa que por séculos retratou os povos indígenas e africanos como “selvagens”, enquanto agora esses povos mostram com orgulho a sua beleza e sabedoria.
Quais diferenças a senhora estabelece entre espiritualidade indígena e religiões ocidentais no tocante ao cuidado com a natureza?
As espiritualidades indígenas e africanas têm dezenas ou centenas de milhares de anos em relação à existência das religiões ocidentais, que são muito mais recentes. A espiritualidade ancestral é uma expressão de entendimento da relação entre o mundo visível e invisível, uma dança equilibrada. Em contraste, as religiões ocidentais dominantes se tornaram um instrumento de controle, julgamento e discriminação, agindo de forma contrária às suas próprias mensagens de amor e compaixão.
Uma única crença é arrogância
Assim como Deus (ou a energia divina) criou uma imensa diversidade na natureza, também criou uma diversidade de pensamentos e formas de expressar o amor e a conexão com o sagrado. Tentar impor uma única voz ou forma de crença é arrogância e um problema de controle, não de fé. A verdadeira espiritualidade se manifesta na abertura de coração para abraçar e ajudar o próximo.
Fale-nos da cerimônia de religação das águas dos rios Amazonas e Congo que a senhora fará no Encontro das águas.
A água é sagrada, viva, e representa a energia materna, a memória do planeta e a cura. A cerimônia é um ato de reverência e um símbolo da sua intenção de unir os dois maiores sistemas fluviais e florestais do mundo, que são “irmãos”. É um ato de reconciliação e apoio aos povos indígenas e afrodescendentes.
Fotos: BNC Amazonas
