A próxima década define o destino do planeta e a extinção dos combustíveis fósseis

Entre avanços lentos e compromissos frágeis, o mundo enfrenta a década decisiva para abandonar os combustíveis fósseis e evitar o colapso climático.

A próxima década define o destino do planeta e a extinção dos combustíveis fósseis

Por Fabiano Bó*

Publicado em: 29/11/2025 às 11:11 | Atualizado em: 29/11/2025 às 11:22

O debate sobre o futuro energético global assume centralidade na reflexão sobre o equilíbrio entre desenvolvimento econômico, justiça social e sustentabilidade ambiental. Dados de 2023 indicam que 81,5% da energia primária mundial ainda dependia de petróleo, carvão e gás, segundo levantamento conjunto da KPMG, rede internacional de auditoria e consultoria tributária, e da Kearney, consultoria internacional de estratégia e gestão. Apesar do crescimento expressivo das fontes renováveis, atingindo níveis históricos, a matriz energética global permanece profundamente estruturada em torno dos hidrocarbonetos, e o consumo global de energia cresceu 2% em relação ao ano anterior, evidenciando que a expansão renovável, embora significativa, ainda não rompe a dependência histórica das economias modernas por combustíveis fósseis.

Essa realidade evidencia escolhas coletivas que transcendem a técnica: persistir no uso de combustíveis fósseis diante de alternativas disponíveis representa decisões éticas e estruturais com impacto global. Em 2024, as emissões de dióxido de carbono atingiram novos recordes, segundo a Ember, organização internacional dedicada ao monitoramento da transição energética, com o carvão mantendo-se como principal fonte de geração mundial, seguido pelo gás, enquanto o petróleo manteve seu peso estrutural. Mesmo com mais de 40% da eletricidade global gerada por fontes de baixo carbono, a continuidade de infraestruturas fósseis demonstra que o desafio da transição energética envolve não apenas tecnologia, mas também economia, governança e responsabilidade coletiva, exigindo alinhamento estratégico de políticas públicas e investimento tecnológico coordenado.

No Brasil, o cenário apresenta particularidades que exigem atenção estratégica. Em 2023, a matriz elétrica nacional registrou 49,1% de participação de fontes renováveis, índice acima da média de países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), segundo dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Entretanto, setores como transporte e agropecuária permanecem intensamente dependentes de diesel e derivados, mantendo elevados níveis de consumo de combustíveis fósseis. A transição energética requer inovação tecnológica, políticas públicas eficazes e planejamento de longo prazo, de maneira a reduzir vulnerabilidades socioambientais, especialmente em regiões críticas como a Amazônia, onde a pressão sobre recursos naturais se soma ao risco climático crescente.

Durante a COP-30, muitos depositaram sobre esta conferência a expectativa e a responsabilidade de uma decisão global decisiva, representando uma das últimas grandes janelas para estabelecer um roteiro internacional de eliminação progressiva de carvão, petróleo e gás. O mundo reunido em Belém buscava alinhar ambição e responsabilidade com um pacto explícito para abandonar os combustíveis fósseis. Quando o documento final foi divulgado, a expressão “eliminação progressiva dos combustíveis fósseis” não apareceu. Prevaleceu uma abordagem baseada em “esforços voluntários” e orientações sem caráter mandatório. Essa lacuna traduz a complexidade política e econômica de enfrentar diretamente a raiz das emissões globais. Países com alta dependência de combustíveis fósseis resistem a assumir compromissos vinculantes, enquanto nações vulneráveis aos impactos climáticos urgem por ações mais firmes.

Essa abordagem ressalta a necessidade de planejamento estruturado e soluções adaptáveis às diferentes realidades nacionais. Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) deixam claro que a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis é condição indispensável para a viabilidade de um futuro habitável. Cada ano de atraso implica mais emissões, degradação ambiental, aumento das desigualdades sociais e risco de colapso climático. A transição energética, portanto, deve ser multidimensional: econômica, social, tecnológica, envolvendo governos, iniciativa privada, academia e sociedade civil, em processos integrados e transparentes.

A eliminação dos combustíveis fósseis é um processo inevitável e de longo prazo. O desafio não é apenas técnico, mas político. Exige visão de Estado, cooperação internacional e coragem para implementar medidas estruturais que redefinam os padrões de produção e consumo. O futuro energético se decide agora. As escolhas da próxima década definirão não apenas o destino da economia global, mas a própria habitabilidade do planeta. O compromisso com a sustentabilidade não é mais opção: é a única via possível para assegurar qualidade de vida às próximas gerações e evitar um cenário irreversível de aquecimento descontrolado.

*O autor é Coronel da Polícia Militar, especialista em Política e Estratégia (ADESG) e secretário de Estado Chefe da Casa Militar do Amazonas.

Foto: divulgação