Pai Francisco e Mãe Catirina, a força negra do boi-bumbá

Personagens centrais do boi-bumbá seguem apagados no espetáculo, refletindo racismo estrutural e pouca valorização na competição

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 23/11/2025 às 11:37 | Atualizado em: 23/11/2025 às 11:37

No mês dedicado à consciência negra, chamo atenção para essas duas personagens emblemáticas do boi-bumbá parintinense, e brasileiro: os negros Pai Francisco e Mãe Catirina.

É em torno deles que a saga do boi de pano inicia e acontece. Eles são, simbolicamente, pai e mãe de Garantido e Caprichoso.

No entanto, à medida que as apresentações foram se espetacularizando, sua centralidade foi se deslocando para a margem até deixar de ter um espaço próprio, reduzindo-se a um item de obrigatoriedade, mas não de competição.

O fato de não contar pontos para o campeonato faz com que o investimento no casal de negros seja bastante tímido em relação aos demais elementos.

Podemos afirmar que há uma tentativa de apagamento de Pai Francisco e Mãe Catirina, reproduzindo o racismo estrutural, próprio de nossa sociedade, justamente, em uma festa que se perpetuou porque mantida por negros.

Auto do boi

O auto do boi parintinense se sucede assim:

Pai Francisco e Mãe Catirina são empregados de um fazendeiro. Mãe Catirina grávida deseja comer a língua do boi mais bonito da fazenda.

O esposo mata o boi preferido do amo com um tiro para satisfazer o desejo de sua esposa e foge.

O patrão ordena o vaqueiro de fama real que encontre o fugitivo. Capturado, Pai Francisco é obrigado a restituir o animal morto.
Ele chama médico, padre e, por fim, o pajé, que o revive. Porém, um boi de pano.

Contracolonial

Contado assim, Pai Francisco aparece moralmente condenável, pois se apropria de algo que não é seu. Porém, podemos vê-lo como um insurgente que ousa se apropriar de algo que lhe é negado: a carne do boi que ele cuida (trabalhando), mas não pode comer.

No mesmo sentido, Mãe Catirina pode ser interpretada como alguém com um desejo irracional, que os coloca em uma situação difícil. Mas, pode ser interpretada como uma mulher astuciosa que manipula o marido, não para comer a língua, mas o boi inteiro, já que o animal não sobrevive.

Cômicos

Ao invés de serem retratados como heróis de uma estrutura desigual, os negros do auto foram colocados, ao logo dos séculos, na função do alívio cômico, retratados como figuras grosseiras e desastradas.

Isso sem falar no uso do “black face” para exagerar em um traço considerado engraçado, no caso, a cor da pele.

Racismo estrutural

Interessante é que, na Amazônia, o comum é ter pele escura, já que, a maioria descende de indígenas, negros e/ou os dois.

Não se trata de pessoas brancas ridicularizando um traço de pessoas negras. Todavia, de pessoas que, não sendo brancas (a maioria), reproduziam uma estrutura racista.

A resposta das crianças

Uma consequência direta do lugar discreto e distorcido da potência que são Pai Francisco e Mãe Catirina é que nas festas oficiais e cortejos nas ruas de Parintins, não se vê crianças querendo ser os personagens que são pai e mãe dos bois.

Vê-se, especialmente, muitas meninas vestindo-se de sinhazinhas, símbolo da branquitude no espetáculo do boi-bumbá parintinense, que nem personagem do auto do boi era.

Os meninos gostam de se fantasiar de amos, tripas, pajés, levantadores e apresentadores. Porém, Pai Francisco, não.

As crianças, afinal, brincam do que veem no mundo dos adultos. Elas são um bom indicador da estrutura social, pois esta é ensinada.

Apagamento

O racismo estrutural explica que as crianças não têm como sonhar em ser algo que não tem destaque nas apresentações, um momento único, uma coreografia e que não contribuem com pontos para a vitória de seus bois bumbás.

Trago que Pai Francisco e Mãe Catirina não terem um lugar de destaque no espetáculo impacta de forma negativa a representatividade negra.

O guarda-chuva da tradição

Os argumentos sobre a manutenção da performance de Pai Francisco e Mãe Catirina como ela é pairam na esfera da preservação da tradição.

Contudo, se fosse para preservar a tradição do auto do boi parintinense, não existiria sinhazinha da fazenda, a branca. Ou qualquer um dos muitos elementos que foram criados, retirados ou revitalizados.

Tal como o próprio gazumbá, que voltou a acompanhar Pai Francisco e Mãe Catirina nos últimos anos.

Avanços

Garantido e Caprichoso pararam de fazer “black face” após serem publicamente constrangidos por uma carta dos jurados em 2019 sobre o fato.

Atualmente, pessoas negras interpretam as personagens. E sua performance não é mais cômica. Pai Francisco, Mãe Catirina e Gazumbá, hoje, são graciosos na arena.

Nos últimos anos, participaram de algumas coreografias, mas seguem apagados no espetáculo, especialmente, quando comparados aos demais.

E assim será enquanto não forem capitalizados para o campeonato.

*A autora é antropóloga.

Foto: reprodução/internet