250 colunas: o tempo, a escrita e o compromisso

Primeiro articulista fixo do BNC, Aldenor Ferreira fala da marca de hoje e analisa: a regularidade não é apenas disciplina: é uma forma de resistência

250 artigos ldenor ferreira / arte: Gilmal

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 15/11/2025 às 00:00 | Atualizado em: 14/11/2025 às 19:58

Há quase cinco anos, sem interrupções, esta coluna ocupa seu espaço no BNC-Amazonas com um propósito que permanece inalterado: pensar a sociedade brasileira com as ferramentas da sociologia, mas com a linguagem de quem fala ao leitor comum, aquele que busca compreender o tempo em que vive.

Desde o início, o exercício foi o da tradução. Tradução de conceitos e categorias que, muitas vezes, nascem no ambiente acadêmico e permanecem restritos a ele. Termos como hegemoniacapital simbólicopseudoconcreticidade ou sociedade de risco podem parecer distantes do leitor comum, mas carregam chaves poderosas para interpretar a realidade. 

Nesse sentido, escrever semanalmente é, antes de tudo, um esforço constante de transformar ideias em pontes entre a ciência e o público, entre o pensamento crítico e a vida cotidiana. Ao mesmo tempo, escrever é tomar posição. E a coluna nasceu com esta vocação: oferecer opinião política e crítica, sem disfarces nem neutralidades convenientes. 

Em um contexto marcado por desinformação, revisionismo e autoritarismo digital, manter o exercício da crítica é quase uma forma de insurgência ética. A palavra pública, quando usada com responsabilidade, é um gesto de compromisso com a verdade e com o bem comum.

Search Engine Optimization

Com o passar do tempo, a prática semanal da escrita me ensinou algo muito importante: o valor da técnica e da adaptação. Descobri, aos poucos, que as palavras também precisam encontrar novos caminhos no oceano das redes. Títulos, subtítulos, palavras-chave – os instrumentos que hoje chamamos de Search Engine Optimization – revelaram-se ferramentas não de marketing, mas de acesso.

Por isso, comunicar bem, no mundo digital, é garantir que ideias fundamentadas encontrem o caminho até quem mais precisa delas. Dominar as lógicas da visibilidade – compreender os algoritmos, as palavras-chave, o ritmo da leitura em tela – revelou-se, paradoxalmente, uma forma de aprendizado político: disputar espaços de atenção e de sentido num ambiente regido por métricas e distrações.

Além disso, escrever de modo ininterrupto, por tantas semanas, também me ensinou algo sobre o próprio tempo. A regularidade não é apenas disciplina: é uma forma de resistência contra o esquecimento. Cada texto funciona como registro de um momento histórico, de uma indignação, de uma esperança. Assim, quando reunidos, esses fragmentos formam uma espécie de memória coletiva – um retrato crítico do país, de seus impasses e contradições. 

Considerações finais 

No fim das contas, o propósito permanece o mesmo: elevar a qualidade do debate público. Contribuir, com cada texto, para que a leitura seja também um convite à reflexão, à crítica, ao diálogo e à escuta do outro. Noutras palavras, é falar de forma simples, mas qualificada. Afinal, falar por falar até os papagaios o fazem, quando ensinados.

Neste âmbito, é imprescindível não deixarmos de acreditar que a palavra, quando nasce do encontro entre ciência, ética e sensibilidade, ainda pode mudar algo, nem que seja o modo como olhamos o mundo ou o modo como escolhemos continuar nele.

Em última instância, chegar a 250 colunas é mais que um marco simbólico. É a prova de que o pensamento crítico tem fôlego, disciplina e fé na palavra. Escrever toda semana é resistir à banalidade, afirmar a inteligência contra o ruído e renovar, a cada texto. É ainda a esperança de que pensar – em público e com o público – ainda faz a diferença.

Sociólogo*

Arte: Gilmal