Amazônia na COP-30: corte na ciência é corte na floresta

"Se quisermos virar a página, o caminho já está desenhado: ciência com compromisso social, floresta em pé com pesquisa viva", aponta o sociólogo Aldenor Ferreira

Amazônia na COP-30: corte na ciência é corte na floresta

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 08/11/2025 às 01:11 | Atualizado em: 07/11/2025 às 16:05

Nos últimos anos, não foram poucos os relatos de instituições científicas na Amazônia que viram seus orçamentos minguarem, mesmo enquanto crescem as responsabilidades que o território amazônico assume no cenário global de mudanças climáticas.

De forma contraditória, enquanto os alertas científicos se avolumam sobre os riscos da degradação ambiental da região, o país segue desperdiçando oportunidades decisivas com projetos de pesquisa interrompidos, agendas estratégicas descontinuadas e os investimentos em ciência, proteção territorial e infraestrutura socioambiental gradualmente reduzidos, justamente onde mais se exige a presença e a inteligência do Estado.

A título de exemplo, em 2024, o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, enfrentou cortes de despesas fixas e dificuldades estruturais. No mesmo ano, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) também sofreu queda significativa em seu orçamento.

Compromissos

Romper esse ciclo de retrocesso e improviso exige, no mínimo, três compromissos claros. O primeiro é blindar a política científica contra oscilações ideológicas, assegurando que a produção de conhecimento na Amazônia não seja refém de governos de turno ou de modismos institucionais, mas construída sobre uma política de Estado, com planejamento de longo prazo e orçamento estável.

O segundo compromisso é aproximar ciência e sociedade, envolvendo povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e outros povos e comunidades tradicionais como protagonistas das pesquisas, não apenas como informantes-chave ou contextos estudados à distância, mas como sujeitos que constroem, interpretam e aplicam o conhecimento junto aos pesquisadores.

O terceiro é reposicionar a Amazônia no mapa global da ciência, deixando de vê-la apenas como fonte de matérias-primas ou como arena de disputa geopolítica, e assumindo-a como polo estratégico de inovação verde, experimentação científica e produção de saberes interdisciplinares. 

Laboratório vivo 

É isso que está por trás da bioeconomia, da farmacologia natural, da climatologia de ponta, da sociologia dos modos de vida na floresta, áreas que poderiam florescer em territórios vivos, se o país tivesse visão de futuro.

A Amazônia foi, é e continuará sendo um laboratório vivo da ciência e da política ambiental. A questão é se o Brasil terá a coragem e o compromisso de liderar esse processo ou se seguirá assistindo ao desmonte silencioso de seu maior ativo estratégico. Sem essa virada, continuaremos repetindo diagnósticos e lamentando oportunidades perdidas, em vez de construir o futuro que a Amazônia e o restante do Brasil merecem.

As populações tradicionais indígenas e não indígenas compreenderam, desde sempre, o equilíbrio entre natureza, sociedade e cultura. Mas os gestores políticos e econômicos do Brasil frequentemente ignoraram essa lição, privilegiando modelos de desenvolvimento excludentes, imediatistas e devastadores. 

Considerações finais

Se quisermos virar a página, o caminho já está desenhado: ciência com compromisso social, floresta em pé com pesquisa viva; Amazônia como centro e não como periferia. Os gestores e líderes políticos que se reunirão na COP-30 este mês, em Belém, precisam entender, de uma vez por todas, que corte na ciência é corte na floresta. Esse é o desafio a ser superado. E também a nossa esperança.

*O autor é sociólogo. 

Arte: Gilmal