Os primeiros vagidos de novembro
Em seu artigo semanal, o articulista escreve hoje com tom de saudades dos que partiram.
Por Flávio Lauria*
Publicado em: 31/10/2025 às 11:16 | Atualizado em: 31/10/2025 às 11:18
Último dia do mês de outubro de 2025, amanhã já será novembro e logo depois Dia de Finados, dia tão sinistro como é redundante dizê-lo.
Lembro de alguns amigos que se foram neste ano, alguns deixaram-se sucumbir na tristeza, na alma talvez. Lá foram eles pondo um fim a suas vidas.
O corpo nunca adoece antes da alma. A verdade é que passamos a vida adiando o agora. Quantos acenos inconclusos, quando beijos adiados, quantos abraços esquecidos, quanta ternura poupada por conta da máxima cruel de nossa época: “não tive tempo”?
É o jantar recusado à amada, a presença-ausente do Dia das Mães, o esquecimento sintomático do aniversário de um amigo, o ciúme levando a brigas evitáveis.
Estamos assim desprezando a arte de viver e o encanto que as belezas, inapercebidas por deformação profissional, trazem.
Se não o fazemos para que adiantou respirar ou transitar nesse mundo sublunar?
Não adianta adiar o mapa do coração, dizer que “amanhã é possível”, “talvez quem sabe”, ou “não sei” como diz uma pessoa que amo muito.
São questionamentos que me acompanham ao transitar, contrito, por entre esta antevéspera do dia dedicado aos mortos.
Já escrevi que não vou a cemitérios, e espero não ter em minha agenda pelo maior tempo possível, nem vivo nem morto.
Nesta iminente quase virada de ano, o este instante pode ser tão vago que, de modo impressentido, tomo-o entre os dedos de oscilantes e trêmulas mãos.
Constato que há esquecidos soluços de muitos antigamentes anteriores. Sementes genéticas do final de muitas coisas ocorridas, e o alvorecer de outras.
Amanheço com a sensação de, durante a noite (os sonhos, quero dizer) ter sido um prisioneiro, dentro daqueles parâmetros de Proust, em busca do tempo perdido.
Este instante pertence a todos os seres humanos, gravo-o, em blu-ray. Dentro das memórias audíveis voltarei, e todos nós, em um dia qualquer de 2024, à convivência do que passou em 2013. Um colecionador de sonhos do ano que termina.
Eis o meu trabalho, diuturno.
Até dos meus próprios fósseis, quando caminho em busca daquela luz, no final do túnel deste expirante 2025, que estará apagada dentro de 61 dias.
Ouvir-se-ão, amanhã, os primeiros vagidos dos dias do mês de novembro.
Vago e impreciso nas definições, frases talvez desconexas, desativadas. Misturo preâmbulos de cogitações. Embrulho depois tudo, em papel celofane, ponho endereço, levo-o aos Correios, sob registro. Alguém (ou ninguém, talvez seja este meu objetivo) entretanto nada irá receber. Durma-se com um barulho desses, dirá o(a) leitor(a).
O este instante de agora é semente reprodutora daqueles outros, dos amanhãs que virão. Há verdes circundantes, nuvens prenunciam chuvas, dentro da entardecida Manaus.
A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina.
Alguém já disse e eu também acho, que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
Saudades dos que partiram, e escrevo tudo isso pelo Dia de Finados.
*O autor é mestre e doutor em administração pública.
Foto: divulgação/Semulsp
