A chantagem que deu certo: EUA e as eleições na Argentina
Neste texto, o autor examina como Trump transformou um acordo de US$ 20 bi em arma política para garantir a vitória de Milei na Argentina
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 28/10/2025 às 13:55 | Atualizado em: 28/10/2025 às 13:55
O evento central gira em torno de um acordo de financiamento de US$ 20 bilhões (na forma de uma linha de swap cambial ou empréstimo) do governo dos EUA para a Argentina, comandada por Javier Milei.
O acordo foi anunciado e formalizado em um momento estratégico: poucos dias antes das cruciais eleições legislativas de meio de mandato na Argentina.
Ameaça explícita
O ponto mais claro da chantagem veio do próprio Donald Trump em público.
Ao receber o presidente argentino Javier Milei na Casa Branca, Trump fez uma declaração com uma condicionalidade inconfundível, direcionada diretamente aos eleitores argentinos:
“Se ele [Milei] perder, não seremos generosos com a Argentina”.
Essa fala estabeleceu uma ligação direta entre o apoio financeiro dos EUA — um salva-vidas crucial para a economia argentina à beira de uma crise cambial — e o resultado da eleição legislativa.
A mensagem para os argentinos era clara: a estabilidade e o apoio econômico americano dependiam da vitória do partido de Milei, A Liberdade Avança (LLA).
Objetivo e resultado (o “sucesso”)
✓ O Objetivo de Trump e Milei: o resgate financeiro buscava injetar confiança e estabilidade no peso argentino, mitigando a crise de liquidez e o medo do mercado, para evitar que a economia desmoronasse antes da votação. Isso impediria que o descontentamento econômico se traduzisse em uma derrota eleitoral maciça para o governo.
✓ O resultado da eleição: o partido de Milei, A Liberdade Avança (LLA), conquistou uma vitória esmagadora nas eleições legislativas (superando as expectativas mais otimistas), garantindo um forte impulso político e um número suficiente de assentos no Congresso para sustentar os vetos presidenciais.
✓ A conclusão de Trump: após a vitória, Trump elogiou o resultado, dizendo que Milei “teve muita ajuda nossa” e que a eleição fez “os Estados Unidos ganharem muito dinheiro” (referindo-se à alta nos títulos e mercados argentinos).
A análise crítica do “sucesso”
Neste caso, a chantagem de Trump de fato “deu certo” no sentido de alcançar seu objetivo: o apoio financeiro dos EUA, estrategicamente cronometrado e condicionado publicamente, reforçou a posição de Milei e pode ter influenciado diretamente a percepção de estabilidade dos eleitores.
O anúncio de um resgate bilionário dos EUA, feito a poucos dias de uma eleição decisiva, transformou a votação em uma escolha entre a continuidade do apoio americano (se Milei vencesse) e o risco de abandono financeiro (se ele perdesse).
Para a Argentina, dependente desesperadamente de fundos externos, a pressão para fazer a chantagem dar certo era imensa.
*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: Reprodução/Daniel Torok/The White House
