Universidade pública ou confraria dos chegados?
Texto analisa como burocracia, clientelismo e vaidades corroem a autonomia intelectual e o sentido público da universidade.
Por Lisandro Braga*
Publicado em: 13/10/2025 às 08:49 | Atualizado em: 13/10/2025 às 08:54
Há tempos os departamentos e programas de pós-graduação deixaram de ser, especialmente após a miséria acadêmica instalada pelo regime de acumulação integral, espaços incentivadores do pensamento crítico e da autonomia intelectual. Essa inflexão não ocorreu por acaso, mas está intimamente relacionada às transformações estruturais do capitalismo e às novas formas de controle ideológico que passaram a incidir sobre a produção do conhecimento.
Conforme Viana (2009) e Braga (2013; 2020), o regime de acumulação integral expressa a forma contemporânea de organização do capitalismo, que, desde os anos 1980, busca retomar o ciclo de expansão por meio do toyotismo, do Estado neoliberal e de uma ofensiva global de caráter neoimperialista. Essa dinâmica é acompanhada por uma contrarrevolução cultural preventiva, marcada pela hegemonia de ideologias pós-estruturalistas nas universidades, em sintonia com a cultura neoliberal.
Esses espaços tornaram-se, cada vez mais, um mundo de ecos e espelhos, administrados por grupelhos que se confundem com facções, zelosos de seus privilégios e dispostos a defenderem, a qualquer custo, o pequeno poder medíocre que controlam.
O compadrio
Sob o manto da ciência e da gestão acadêmica, prospera o mesmo tipo de relação que se encontra nos bastidores da política tradicional, que vai do progressismo (de esquerda) ao conservantismo (de extrema-direita) na contemporaneidade: o compadrio, a troca de favores, o clientelismo e a lealdade pessoal erigidos em critérios de permanência e ascensão.
E é precisamente quando alguns poucos docentes preservam sua autonomia – quando se recusam a servir partidos, facções, líderes, ideologias sociológicas etc. – que a perseguição se torna mais incisiva. O alvo preferencial é aquele que se orienta por princípios, não por conveniências; que não se curva à lógica das alianças; que mantém distância do poder, dos partidos e das benesses institucionais.
E se esse docente é crítico radical da sociedade capitalista (marxista) e possui autonomia intelectual, sua mera existência já se converte em afronta. A perseguição, então, ganha contornos de expurgo silencioso, executado com a frieza burocrática dos que, simuladamente, dizem agir em nome da “gestão acadêmica”.
Deformação
Essa deformação, que converte a comunidade acadêmica em confraria, tem efeitos devastadores sobre o sentido público e republicano da universidade. Em lugar da convivência de ideias, há a imposição de uma ortodoxia silenciosa; no lugar do diálogo, a política miúda de bastidores; e onde deveria haver avaliação baseada em mérito e compromisso com a produção do conhecimento, instala-se o cálculo das conveniências pessoais.
É nesse cenário que se torna possível a perseguição política de professores que ousam criticar a direção hegemônica ou o partido informal que comanda o programa. Não se trata de episódios isolados, mas de uma prática sistematizada e naturalizada pela frequência. A complacência dos pares – cúmplices pela omissão – abre precedente para que a repressão e censura dos dissidentes se torne regra.
Os professores críticos são vistos como ameaças a um equilíbrio de interesses cuidadosamente mantido; são marginalizados e punidos com a invisibilidade. Em contrapartida, os aliados desfrutam de benevolência e proteção. O princípio tácito é simples e cruel: para os amigos, tudo; para os inimigos, a força da lei.
A confraria
Quando o pertencimento à confraria se sobrepõe ao compromisso público, a universidade deixa de ser um espaço de formação para o pensamento e se converte num aparato reprodutor da mediocridade.
A expressão pode soar dura, mas é precisa: os medíocres condecoram os medíocres. É assim que professores desprovidos de trajetória científica sólida, mas habilidosos no jogo das alianças e conluios, ascendem a cargos estratégicos e tornam-se referências internas não pelo mérito, mas pela conveniência. Pois, como já alertava o sociólogo liberal Max Weber:
Você acredita que pode, sem amargura nem desespero, ver passar à sua frente, ano após ano, mediocridade após mediocridade e, ainda por cima, ter de depender delas? O destino de um homem de ciência é, em todas as épocas, determinado por essa situação. Ele deve, antes de tudo, ter a força interior de resignar-se a isso. A universidade é uma empresa em que as carreiras dependem de fatores que não têm nada a ver com o valor intrínseco do trabalho intelectual. Muitos são chamados, poucos são escolhidos, e mesmo os escolhidos raramente podem dizer que o foram por mérito puro (Weber, 1999, p. 24-25).
Essa dinâmica ecoa aquilo que Maurício Tragtenberg (2002) constatou há décadas como delinquência acadêmica: a substituição da criação do conhecimento pelo controle sobre ele; o uso da burocracia e do formalismo para preservar o poder em detrimento da reflexão crítica.
A burocracia-intelectual
A universidade, que deveria ser espaço de debates francos de ideias, é tomada por uma burocracia-intelectual que opera como uma empresa privatizada. A conivência com a mediocridade e a perseguição aos dissidentes se sustentam sobre uma racionalidade cínica, típica da classe intelectual: uma classe auxiliar da burguesia, que vive da reprodução da dominação burguesa e legitima seus privilégios sob o discurso da neutralidade e da autonomia (Viana, 2024).
Muitos professores universitários, sobretudo em programas de pós-graduação, acreditam exercer uma função universal e desinteressada, quando na verdade apenas atualizam as relações de dominação sob novas roupagens. A neutralidade científica se transforma em cortina ideológica que encobre o conservadorismo de práticas internas profundamente autoritárias. E o professor que desmonta esse discurso e denuncia a cumplicidade entre saber e poder torna-se a figura incômoda, o “estranho” que precisa ser silenciado para que o pacto oligárquico-acadêmico se mantenha.
A retórica democrática
Em programas de pós-graduação, esse processo assume formas sofisticadas. Há o professor “testa de ferro”, aquele que empresta o nome a projetos, grupos coordenados e artigos, na prática, realizados por outros; há a cooptação dos recém-chegados, que se veem constrangidos a aderir ao esquema vigente para garantir sua sobrevivência acadêmica; e há as deliberações de bastidor, nas quais decisões são tomadas, muitas vezes previamente à reunião oficial, para resguardar interesses de membros da confraria, amigos ou aliados de quem detém, mesmo que ilusoriamente, o poder.
A retórica democrática das reuniões colegiadas não passa, muitas vezes, de encenação: a aparência de participação legitima uma dinâmica em que os resultados são previsíveis antes mesmo de qualquer debate. Nesse teatro institucional, o docente que recusa o papel de cúmplice é tratado como ameaça, como se sua presença maculasse a ordem “pacífica” da confraria.
Essas práticas não são meros desvios individuais, mas expressões de um modo de operar que tem raízes profundas. Como demonstrado em outros trabalhos (Braga, 2024; Viana, 2024), a divisão social do trabalho intelectual gera formas específicas de pertencimento de classe e de ideologia: o intelectual tende a reproduzir na esfera acadêmica as mesmas hierarquias e relações de poder que supostamente critica na sociedade.
A captura dos departamentos
Os departamentos e programas de pós-graduação, quando capturados por um grupo, funcionam como uma célula fechada desse processo de regularização, uma instância onde o poder se disfarça de mérito e o privilégio de competência. Nesse contexto, a perseguição política interna, que se manifesta em boicotes sutis, casuísmos explícitos, bloqueios de projetos e silenciamento de vozes críticas – não é uma aberração, mas uma consequência lógica para os adoradores do poder.
Ela decorre de uma mentalidade corporativa que transforma divergência em deslealdade e pensamento radical em afronta pessoal. Assim, os departamentos e programas de pós-graduação deixam de ser um espaço de formação para o espírito crítico e se tornam uma confraria para fins políticos, e até mesmo partidários, onde o que se aprende é o cálculo da sobrevivência egóica.
Em meio a tudo isso, os ideais republicanos que deveriam nortear a universidade pública – impessoalidade, transparência e interesse coletivo – se dissolvem em práticas típicas de confraria. A meritocracia é evocada apenas para punir, jamais para reconhecer o mérito. Grupos que se autoproclamam progressistas reproduzem, em sua política covarde e cotidiana, os mesmos mecanismos de dominação e opressão que dizem combater na sociedade de classes.
No limite, tais práticas possuem o poder de converter uma instituição pública em uma corporação de interesses privados, uma confraria de poder travestida de colegiado científico. Denunciar a captura da instituição por interesses pessoais é uma forma de reafirmar o princípio republicano que deveria sustentá-la.
A universidade como espaço de crítica
Como advertiu Tragtenberg (2002), o intelectual comprometido com a liberdade precisa destruir a apropriação burocrática da crítica, sob pena de transformar a reflexão em ornamento e a universidade em simulacro. A universidade deveria ser o lugar onde o pensamento se liberta das amarras do poder, e não o contrário. Deveria ser o espaço em que a crítica floresce, a divergência é bem-vinda e o mérito se confunde com o compromisso público, não com a habilidade de cultivar alianças.
O conhecimento, em uma sociedade que se aproxima da barbárie social, deveria ser o de interrogar essa barbárie, e não o de colaborar com sua regularização no seu interior. Quando a universidade deixa de ser o território da crítica para se tornar o palco da vaidade e da conveniência, ela trai esse propósito.
A verdadeira função da docência e da pesquisa é emancipar, e não submeter; formar consciências, e não burocratas; gerar saberes que sirvam à transformação da sociedade da barbárie capitalista, e não aos grupos que a parasitam.
Considerações finais
Concluo afirmando que a universidade pública, gerida segundo os princípios de confraria, jamais será o lugar onde o conhecimento será produzido para libertar. Pelo contrário, converte-se em uma ferramenta do poder para servir ao grupelho.
Nesse sentido, enquanto o pensamento continuar vigiado, o dissenso punido e a mediocridade premiada, não haverá universidade: apenas o simulacro de uma confraria cercada de professores dispostos a serem tão somente “outro tijolo no muro” do conservadorismo intelectual burguês.
*O autor é doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor no Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
