Lula defende Amazônia na ONU e chama América Latina a ser zona de paz

No discurso de abertura da Assembleia-Geral da ONU, presidente destacou também a COP-30

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 23/09/2025 às 14:27 | Atualizado em: 23/09/2025 às 14:27

Contundente. Assim está sendo classificado o discurso do presidente do Brasil, Lula da Silva, na abertura da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na manhã desta terça-feira, 23 de setembro de 2025.

Em sua fala de 18 minutos, Lula dedicou parte dela ao posicionamento do Brasil e da América Latina no centro dos debates globais sobre paz, crise climática e multilateralismo.

Lula destacou a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), a ser realizada em novembro deste ano, em Belém, no Pará, como a “COP da verdade”.

Assim como propôs a criação de um fundo para remunerar países que preservam suas florestas.

Além do apelo para que a América Latina e o Caribe se mantenham como uma zona de paz.

Ao final do discurso, Lula homenageou o Papa Francisco, da Argentina, e o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica como símbolos dos valores humanistas.

COP30 no Brasil

O presidente brasileiro dedicou parte de seu pronunciamento à urgência da crise climática, afirmando que 2024 foi o ano mais quente já registrado na história.

Ele anunciou que a COP30 será um momento decisivo para que os líderes mundiais provem a seriedade de seus compromissos com o planeta. Segundo Lula, em Belém, o mundo vai conhecer a realidade da Amazônia.

“A COP30 será a COP da verdade. Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta. Sem ter o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas (as NDCs), caminharemos de olhos vendados para o abismo”, declarou o presidente.

De acordo com Lula, o Brasil se comprometeu a reduzir entre 59% e 67% suas emissões de CO₂, abrangendo todos os gases de efeito estufa e todos os setores da economia.

“Nações em desenvolvimento enfrentam a mudança do clima ao mesmo tempo em que lutam contra outros desafios. Enquanto isso, países ricos usufruem de padrão de vida obtido às custas de duzentos anos de emissões. Exigir maior ambição e maior acesso a recursos e tecnologias não é uma questão de caridade, mas de justiça. Em Belém, o mundo vai conhecer a realidade da Amazônia”, ressaltou Lula.

Fundo das florestas

Ainda no âmbito das questões ambientais, o presidente Lula disse à ONU que o Brasil já reduziu pela metade o desmatamento na Amazônia somente nos dois últimos anos.

Portanto, erradicá-lo requer garantir condições dignas de vida aos seus milhões de habitantes.

Por isso, o fomento do desenvolvimento sustentável é o objetivo do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que o Brasil pretende lançar – na COP30 – para remunerar os países que mantêm suas florestas em pé.

Conselho do clima

Por outro lado, o presidente da República disse que o mundo deve muito ao regime criado pela Convenção do Clima. Mas é necessário trazer o combate à mudança do clima ao coração da ONU para que ela tenha a atenção que merece.

Dessa forma, um conselho vinculado à Assembleia Geral, com força e legitimidade para monitorar compromissos, dará coerência à ação climática.

“Trata-se de um passo fundamental na direção de uma reforma mais abrangente da Organização das Nações Unidas, que contemple também um Conselho de Segurança ampliado nas duas categorias de membros.”

América Latina e zona de paz

Ao abordar a conjuntura regional, Lula da Silva expressou preocupação com a crescente polarização e instabilidade na América Latina e no Caribe.

No entanto, reforçou que a prioridade é manter a região como uma zona de paz. Ele descreveu o continente como livre de armas de destruição em massa e de conflitos étnicos ou religiosos.

O presidente do Brasil também defendeu que a via do diálogo não deve estar fechada na Venezuela e que o Haiti tem direito a um futuro livre de violência.

Além disso, classificou como inadmissível que Cuba continue na lista de países patrocinadores do terrorismo.

E ainda criticou a equiparação entre criminalidade e terrorismo, argumentando que o combate eficaz ao tráfico de drogas passa pela cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e o comércio de armas, e não pelo uso de força letal, que equivale a executar pessoas sem julgamento.

Um dos argumentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para querer invadir militarmente países como Venezuela e México (América Central) é classificar o tráfico de drogas como ações terroristas.

Líderes latino-americanos

Ao encerrar seu discurso, Lula prestou uma homenagem a duas personalidades, que classificou como excepcionais, da América Latina que o mundo perdeu em 2025.

Citou o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, e o Papa Francisco, da Argentina. O presidente os descreveu como figuras que encarnaram como ninguém os melhores valores humanistas, conectando o legado desses líderes à luta por um multilateralismo mais justo e um futuro sustentável.

“Se esses líderes estivessem presentes na tribuna da ONU, ambos lembrariam ao mundo que o autoritarismo, a degradação ambiental e a desigualdade não são inexoráveis. Suas vozes serviriam para reforçar a mensagem de que os únicos derrotados são os que cruzam os braços, resignados.”

Foto: Ricardo Stuckert / PR