Tradicional inunda cirandódromo de alegria

A ciranda Tradicional se apresentou empolgante, com coreografias dramáticas e bons argumentos.

Tradicional inunda cirandódromo de alegria

Dassuem Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 31/08/2025 às 12:58 | Atualizado em: 31/08/2025 às 13:01

A ciranda Tradicional deu um banho de alegria na defesa e exaltação das águas da Amazônia na segunda noite do 27º Festival de Ciranda de Manacapuru.

O espetáculo “Sapucaya’í: um grito pelas águas”, tal como um banzeiro em suas margens, ultrapassou as barreiras entre arquibancada e arena em diversos momentos.

O apresentador Adauto Júnior adentrou a arena nas alturas, sendo levado até a arquibancada, sobre os espectadores.

O cantador de cirandada Jean Carlo, apresentado como a voz negra do festival, saiu do meio de sua torcida, a TOT, Torcida Organizada da Tradicional.

A própria TOT teve seus momentos de adentrar a arena, transformando-se de público em parte do show.

Tecnologia

O cenário de fundo utilizou painéis impressos de seres da floresta, apostando em imagens holográficas para dar movimento às criaturas.

No cenário também se viu alegorias de bichos aquáticos com movimentos impressionantes.

Durante todo o espetáculo, viu-se sincronia entre os arranjos da Tocata de Ouro, a banda de músicos, iluminação, fogos, alegorias, e cordão de cirandeiros, arrebatando o público.

O alerta

Enzo Mura, com cerca de 5 anos, microfonado, deixou seu alerta ao público: “O que nós estamos fazendo? Vamos acabar secos no meio das águas. Respeitem a água em matéria e espírito ou estaremos perdidos”.

A origem da vida

O espetáculo se iniciou com a criação do líquido sagrado na visão da pajerana Zeneida Lima, uma das primeiras mulheres a serem nacionalmente conhecidas por ser uma pajé, sua vida é retratada no Encantados (2013).

A ciranda utilizou as três dimensões de profundidade da arena em diversos momentos. Nesse, um módulo no centro trouxe um bale aéreo, suspenso em tecido, para falar do primeiro pássaro que coloriu o mundo.

O cordão de cirandeiros fez uma entrada apoteótica pela arquibancada.

No figurino do cordão estavam representados os líquidos da vida: vermelho do sangue e o dourado dos rios.

Tradicional

A ciranda Tradicional tem como característica trazer seus personagens típicos em grande estilo.

A Constância, representada por Gabriela Oliveira, chegou no espetáculo representando a geração da vida nas águas uterinas.

Durante o espetáculo, a ciranda intercalou a entrada de Galo Bonito, Seu Honorato, Seu Manelinho e Mãe Benta e as itens individuais femininas, incorporando sua aparição no enredo.

Não entre sem permissão

Além da dimensão física da água como líquido gerador de vida, a Tradicional explorou sua dimensão cultural.

Com a história do Ibupiara, a ciranda lembra que pedir licença aos donos das águas antes de entrar é um dos primeiros aprendizados dos amazônidas sobre a natureza.

Ibupiara é uma criatura do fundo dos rios, assombra quem desrespeita o meio ambiente.

O sagrado

A dimensão religiosa das águas também foi explorada. A orixá Oxum, rainha das águas doces na perspectiva das religiões de matriz africana, veio representada em uma grande alegoria.
Porém, antes do ato iniciar, fez-se uma cerimônia de autorização.

Foi levado para a frente da alegoria um ogã, músico que toca atabaque para chamar os entes espirituais nos rituais, que puxou o ponto de umbanda “Eu vi mamãe Oxum na cachoeira”, bastante popular.

O pai de santo Billy de Odé, uma filha de santo, vestida com a indumentária ritualística de Oxum, e outros filhos de santo, dançaram.

Em seguida, iniciou a apresentação do passo (ato musical da ciranda) mãe das águas doces, propriamente dito.

Uma questão de cor

A grande saia da alegoria de Oxum, representada como uma mulher negra retinta, se abriu e dela surgiu a Cirandeira Bela, segurando um espelho.

Com roupa de cirandeira dourada, cor relacionada à Orixá, que também é dona do ouro, Maylin Menezes, uma mulher branca.

Apesar de todo o respeito dedicado ao ato que envolve um ente sagrado, é de se questionar porque a Oxum não pôde ser representada por uma mulher negra, se a ciranda Tradicional tem em seu elenco de destaque duas mulheres negras que poderiam estar nesse lugar?

Mãe Benta

Mãe Benta, por exemplo, surgiu na Tradicional de uma maneira inovadora. Karina Dias, uma mulher negra, ao invés de surgir com a vestida tradicional da personagem, usou um figurino feito de capulana, tecido estampado com cores e desenhos vibrantes, patrimônio cultural e artístico de Moçambique, na África.

Na perspectiva decolonial da Tradicional, Mãe Benta deixou de representar apenas uma quituteira, e foi apresentada como, nos termos de seu apresentador, “uma mulher preta baiana, empoderada, que visibiliza a presença negra na Amazônia”.

Mãe Benta da Tradicional tocou timbal no centro da arena do parque do Ingá.

Arte com senso crítico

A ciranda Tradicional não apresentou um enredo com uma história como fio condutor, mas passos de cirandas que abordaram uma dimensão simbólica das águas e uma mensagem.

No último ato, foram retratados dois indígenas que morreram nas águas da Amazônia colonial, Ajuricaba e Dinaí.

Na visão da ciranda do Terra Preta, eles não se renderam a “opressão colonial, racista e patriarcal”.

Nesse ato, a Tradicional se posicionou contra o marco temporal de terras indígenas e o “PL da devastação, etnocídio e epistemicídio” que ameaçam os povos da Amazônia.

O passo foi nomeado como “Um tributo aos guardiões da natureza”, que são os povos originários.

A porta- cores, Keise Rosa, “uma mulher negra e lésbica”, segundo o apresentador, surgiu do arco-íris, representando Dinaí.

Problemas na execução

A ciranda Tradicional teve poucos problemas de execução na arena. Notou-se com clareza que a Princesa Cirandeira, Yonara Eloize, que entrou no passo do Ibupiara, tardou a surgir do módulo alegórico.

Aparentemente, teve problema para abrir o módulo, que circulou na arena fechado por muito tempo.

No mais, a ciranda Tradicional se apresentou empolgante, com coreografias dramáticas e bons argumentos.

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Fotos: Dassuem Nogueira/ especial para o BNC Amazonas