Consolidar ou renunciar à utopia da Lagoa do Sino?
O sociólogo Aldenor Ferreira defende que a universidade pública deve responder às necessidades da sociedade e a expansão é uma oportunidade histórica que não pode ser perdida
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 30/08/2025 às 02:10 | Atualizado em: 30/08/2025 às 06:17
O campus Lagoa do Sino da Universidade Federal de São Carlos é um espaço singular. Sua origem se deu de maneira muito particular: o terreno onde está instalado foi fruto de uma doação. E doações de valor milionário como a que Raduan Nassar realizou não são comuns em nosso país.
Por ocasião do décimo aniversário do campus, escrevi um texto no qual afirmei que a Lagoa do Sino nasceu da utopia de Raduan, de Lula e de Fernando Haddad. Faço questão de retomar aqui o sentido de “utopia” que utilizei, pois em tempos de banalização dos conceitos e leituras enviesadas, clareza conceitual é indispensável.
O termo vem da obra O Princípio Esperança (2005), de Ernest Bloch. Para ele, a utopia não é uma ilusão ou algo irrealizável, mas sim uma forma de esperança ativa, ligada a um processo transformador que Bloch chama de “otimismo militante”. Em outras palavras, a utopia é movimento, confronto com contradições e busca pelo que “ainda-não-veio-a-ser”.
Foi nesse espírito que Raduan Nassar, ao doar sua fazenda para a criação de um campus universitário, impulsionou o surgimento do novo, daquilo que não era, mas que agora é. O seu gesto deu concretude a um sonho coletivo e lançou as bases para um projeto de futuro.
Pacto registrado
Em 2024, por ocasião da visita do presidente Lula ao campus, acompanhado de Raduan, do ministro Camilo Santana e de demais autoridades, a Lagoa do Sino reviveu essa utopia. Na ocasião, o presidente reafirmou o compromisso com o projeto original do campus, que previa onze cursos de graduação. Esse pacto, firmado publicamente e registrado em vídeo, recoloca o campus no caminho de seu projeto fundador.
É nesse contexto que advogo firmemente que não podemos perder a oportunidade histórica que se abre. Em dez anos de existência, o campus jamais viveu uma conjuntura tão favorável à sua consolidação e à expansão. Este é, portanto, o momento de coragem e de responsabilidade coletiva, não de hesitação, medo ou posturas individualistas.
Todavia, para que a expansão seja sólida e socialmente legitimada, a implantação de novos cursos deve se orientar pelas demandas reais do território. E essa demanda é clara: a comunidade do entorno anseia por mais opções de formação e por um novo turno de funcionamento do campus.
O entusiasmo é palpável, basta uma conversa em qualquer estabelecimento de Campina do Monte Alegre ou Buri para perceber a expectativa diante de cursos com grande potencial de impacto regional, como Psicologia, Arquitetura e Urbanismo, Medicina Veterinária e Nutrição.
Demandas da sociedade
A universidade pública existe para responder às necessidades da sociedade. É a sociedade quem sustenta sua infraestrutura, e é a ela que devemos voltar nossos ouvidos. Por isso, é injustificável qualquer postura contrária à abertura de cursos de alta complexidade. Pessoalmente, considero mais viável consolidar e expandir campi já existentes do que investir na criação de novos, mas isso é assunto para outro texto.
É verdade que a expansão com cursos de maior complexidade exige mais recursos. No entanto, em uma região com um dos menores IDHs do estado de São Paulo, é dever do Estado assumir esse papel. Afinal, historicamente no Brasil, é o Estado quem atua como indutor do desenvolvimento. Como demonstrado por Celso Furtado, cabe ao Estado induzir o desenvolvimento, investir para gerar demanda, produtos, serviços e oportunidades.
Mais do que nunca, é essencial preservar o projeto original, responder aos anseios sociais e concretizar a utopia de Raduan Nassar. Ao doar sua fazenda, sua intenção foi – e continua sendo – o desenvolvimento do território, marcado por sua identidade rural e ambiental. Essa é a sua bandeira, e também pode ser a nossa causa coletiva.
Considerações finais
Tudo na Lagoa do Sino é diferente. Essa singularidade se expressa em seu projeto político-pedagógico e nas linhas de formação de seus cursos, modernas e conectadas com as demandas urgentes da sustentabilidade, da soberania e da segurança alimentar, bem como com o desenvolvimento sustentável do território.
Os desafios para a expansão existem, mas é justamente neles, e na proposta pedagógica diferenciada, que reside o potencial transformador do campus. Esse potencial, porém, não se realizará sozinho: dependerá de decisões políticas e institucionais corajosas e firmes. É aqui que a comunidade Lagoa do Sino (seus gestores, professores, técnicos-administrativos e estudantes) precisam compreender a dimensão de seus papéis.
Cargos de gestão passam. Professores e técnicos-administrativos se aposentam. Alunos concluem seus cursos e seguem seus caminhos. Mas as decisões tomadas no presente permanecem inscritas na história.
A questão que se impõe é: como seremos lembrados? Como protagonistas que tiveram a coragem de avançar na ampliação do campus – implantando cursos de real relevância social, com alta procura, comprovada qualidade acadêmica, sólida empregabilidade e impacto efetivo na economia local e na vida das pessoas – ou como servidores que se esconderam atrás da transitoriedade de seus cargos e mandatos e escolheram o caminho mais curto e mais fácil?
Tenho dito!
*O autor é sociólogo.
Sociólogo.
