Viagem nojenta
Publicado em: 06/02/2011 às 00:00 | Atualizado em: 06/02/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
Há três semanas tento esquecer-me da cena. Não consigo. Acho que estou traumatizado. Não há um busão em que eu entre que o estômago não reclame. Imagino-o rebolando, mexendo como barriga de mulher grávida com curumim sapeca desde o ventre, chutando a mãe para querer sair. O cheiro que meu nariz não sentiu, a imagem que os olhos não viram, parecem tão reais que ainda me atormentam.
Não falo de uma náusea de viagem, daquelas que me custam caro, quando minha mãe, minha irmã e minha sobrinha me visitam. Sem a habilidade que desenvolvi andando de ônibus, minha parentada não aguenta uma voltinha no 014, no 015, 016 ou 017, que demoram até três horas para completar o percurso pela cidade. Quando embarcam, minutos depois, lá estão elas empalidecidas, cheirando a mão e lá vou eu descer e, ao invés pagar a tarifa de R$ 2,25, desembolsar sabe se lá quanto com táxi.
O que falo, senhores, é de coisa nojenta, mesmo! E espero não lhes estragar o dia com essas coisas. Mas faço um pacto com vocês: prossigam na leitura que prometo não deixá-los com a repugnância. Tenho consciência que essas coisas não são para serem contadas em crônica jornalística, mas o que fazer se minha missão nesta coluna é narrar aquilo que o estranhamento incomoda?
Sei o quanto uma cena como essa é danosa. Eu, por exemplo, quando garoto pequeno, bem pequenininho, lá em Parintins, sonhava em comer tartaruga. Afinal, todo mundo falava que bicho de casco era bom (o único que conhecia era bodó), mas era um cardápio de custo alto e o máximo que minha família conseguia era uma cambada de jaraqui, às vezes doada pelos pescadores para não estragar na canoa.
E o sonho de comer tartaruga estava prestes a ser realizado, quando meu tio chegou do lago com uma daquelas que exigem a força de mais de um homem para carregá-la. Desde a hora que chegou à casa dele com o animal, passei a lamber a boca. Acompanhei passo a passo a matança, o preparo, até ajudei a catar lenha no mato para escaldar as vísceras, mas, na hora que o banquete foi servido, um cachorro (Sultão era o nome dele), começou a morrer de um ataque de raiva. Nem queiram saber como foi.
Agora, quase trinta anos depois, voltei a sentir as mesmas coisas. E a responsável por isso é a cobradora do 460, nova linha de ônibus que passou a operar há poucas semanas na Avenida das Torres. Naquele dia, nem tinha planejado embarcar naquela viagem, mas eu queria experimentar a novidade.
Se eu soubesse o que ocorreria ali, mudaria o plano de viagem que tracei para ir ao trabalho. Havia tempo de sobra, uma hora, no mínimo. O planejamento previa que eu deveria embarcar no 458, com tolerância de meia hora para esperá-lo. Mas o 460 apareceu, assim que cheguei à parada. Estava vazio e era novinho. Então, não tive dúvida. Embarquei.
Por sorte, sentei-me nos últimos acentos do coletivo. Se tivesse escolhido um dos acentos vazios perto do motorista e da mulher, talvez o bodó no tucupi tivesse voltado para a boca, ruminando como um touro.
Tudo isso porque, senhores, mesmo de longe, enxerguei a cobradora se portando com estranhos modos. Primeiro, flagrei-a metendo a mão por baixo da calça, coçando e lavando a ponta dos dedos à boca. Por causa disso, deixei de olhá-la por alguns instantes, mas depois voltei a observá-la, dessa vez, a mulher coçava a cabeça repetidas vezes e, de novo, levava a ponta das unhas à boca.
Quando pensei que ela havia acabado com as marmotas, enxerguei-a levando as pontas dos dedos indicadores ao nariz, mas não esperei para ver: gritei para o motorista para parar e, debaixo da chuva, desci da viagem nojenta
*Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
