Milton Hatoum diz que eleição de Lula evita retorno do autoritarismo bolsonarista

Autor amazonense associa sua trilogia sobre a ditadura aos desafios da democracia brasileira e afirma que o país precisa evitar a volta do autoritarismo.

Milton Hatoum diz que eleição de Lula evita retorno do autoritarismo bolsonarista

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 23/07/2026 às 06:07 | Atualizado em: 23/07/2026 às 06:07

O escritor Milton Hatoum disse em entrevista à Rede de Televisão Portuguesa (RTP2), que o presidente Lula deve ser reeleito para que o Brasil não retorne ao regime autoritário da família Bolsonaro.

Hatoum, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), participou do Festival Literário Babbel, ocorrido de 24 a 29 do mês passado, na cidade do Porto, com a participação dos maiores nomes da literatura mundial.

Trechos da entrevista foram postados nas redes sociais do autor e da Companhia das Letras, editora que publica os seus livros.

Na ocasião, Hatoum falou sobre conclusão da trilogia O lugar mais sombrio, com o livro Dança de enganos, que aborda a violência, a censura, as angústias e as incertezas vividas por jovens da sua geração durante o regime militar (1964-1980).

Ele revela que começou a escrever o primeiro livro da trilogia há mais de 15 anos, ainda no segundo mandato do governo Lula, que pavimentou a consolidação da democracia no País. “Não imaginávamos que íamos viver esse pesadelo que foi o governo Bolsonaro”, acentuou.

O governo Bolsonaro aconteceu entre 2019 e 2022 e foi marcado por ataques à democracia e desmonte dos programas de distribuição de renda, preservação ecológica e proteção dos povos originários.
Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão, por enquanto em prisão domiciliar por questão de saúde, por tentativa de golpe de estado, após ser derrotado nas urnas pelo presidente Lula.

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Ciclos de violência

O escritor destacou uma das suas personagens, um nortista, que insinua que na América Latina esses ciclos de violência, a volta do autoritarismo, estão sempre presentes. “O autoritarismo volta sem que a gente esteja preparado para isso”, salienta Hatoum, referindo-se a ascensão de Bolsonaro ao poder, um contumaz defensor da ditadura.

Ele declara-se, apesar dos ataques à democracia, um cidadão muito esperançoso. “Um esperançoso desesperado. Acho que a democracia vai vencer no Brasil. Acho que o presidente Lula vai vencer essas eleições. Acho que a Amazônia será salva”, enfatizou.

Imbecilidade

Em outra fala, essa publicada na plataforma ourinho.online, afirma: “Em termos de imbecilidade, não há alguém mais imbecil que o ex-presidente do meu País. Isso é sabido por todos, não é preciso reiterar aos portugueses. Nós vivemos durante quatro anos sob um reino de total imbecilidade e autoritarismo”.

Lembrou Hatoum, para reforçar a uma afirmação do entrevistador, que o único livro que o ex-presidente mencionou ter lido um único livro é de autoria de um dos maiores torturadores da ditadura que, inclusive, torturou a ex-presidenta Dilma Roussef (1º janeiro a 31 de dezembro de 2016).

Hatoum se refere ao coronel Carlos Brilhante Ustra, que atuou nos porões do estado contra os opositores político da ditadura militar. Ustra, por sinal, foi o primeiro auxiliar do regime militar a ser reconhecido como torturador pela Justiça brasileira.

“Esse foi um governo de imbecis, imbecis cruéis também, de imbecis orgulhosos diante da sua estupidez. A minha geração no Brasil passou toda a sua adolescência e uma parte da sua vida adulta sob uma ditadura. Dos 12 aos 33 anos nós vivemos em uma ditadura”, explicou o escritor.

Da vida do autor, “mas só um pouco”

Ele revela que há, na trilogia, um pouco dessa experiência, como visões, violência e exílio.

“[…] O último livro são as memórias da mãe [Lina, mãe de Martim], porque a mãe desaparece. E o grande drama sentimental e moral do narrador, não é a ditadura, porque não é um militante político. Seria muito fácil, muito obvio. O grande drama dele é a mãe. É o sumiço da mãe. Ele não sabe. O leitor não sabe quem é, qual o destino dessa mãe. E ela aparece depois de 600 páginas, como autora das suas memórias, o que dá uma organicidade. A trilogia é um pouco da minha vida. Mas só um pouco”, adiantou Hatoum.

Ambiente inseguro

Os três volumes de O lugar mais sombrio – A noite da espera. Ponto de Fuga e Dança de engamos – tem como protagonista Martim, símbolo da juventude violentada em seus direitos e sonhos pelo regime militar.

Os dramas familiares e a violência do estado aparelhado aos golpistas perpassa pelos dramas familiares vividos pelas personagens da trilogia. Os livros mostram que a repressão política interfere, violentamente, na formação individual, sentimental e cultural dos jovens atravessados pela ditadura militar.

O drama se desenvolve entre Brasília, centro político, e São Paulo, centro político e econômico do País. A resistência ao regime militar acontece, principalmente, nas universidades, onde a militância de esquerda organizava as suas ações contra o golpe.

Foto: divulgação/TV Brasil