O feio
Publicado em: 08/11/2009 às 00:00 | Atualizado em: 08/11/2009 às 00:00
Não via o Bitinho havia muito tempo, desde o dia em que a mãe dele, com uma criança no colo, e seus irmãos saíram correndo na rua, desesperados, pedindo socorro. Bito, como também era conhecido, foi o único a ficar na casa. Fechou a janela e a porta da frente e até hoje nunca mais pôs os pés de volta ali.
Bitinho era o primeiro filho do Bitoca, o terceiro comerciante a se instalar na rua de casa. Isso ainda no fim da década de 1970. Era um visionário. Enquanto o mundo desconhecia segmentação de mercado, Bitoca já possuía um comércio especializado. Só vendia cachaça. Preferia vendê-la em dose. Ganhava mais.
Bitinho nasceu e se criou ali. Parecia imitar o pai em tudo. Passava horas sentado atrás do balcão à espera dos clientes de sempre. Ah, antes de seguir na história, convém um parêntese. Bitoca também inovou no nome do empreendimento. Era um comércio com nome e sobrenome: “Quiosque do Bitoca São Jorge: ponto dos amigos 100% todos nós”.
Bitoca morreu, e Bitinho tomou a frente do negócio. Ainda era adolescente quando herdou o “Ponto dos Amigos”. Tocou o quiosque até onde pôde. Sem conseguir enfrentar a concorrência, migrou o investimento para o setor de frutas e verduras e ajudou a mãe e irmãos mais novos.
Por trás do balcão do quiosque, porém, Bito não escondia apenas o corpo. Acalentava ali também uma decepção. Estava com 25 anos de idade e nenhuma garota havia se interessado por ele. Além disso, nunca foi correspondido em suas investidas.
Bitinho fazia de tudo para chamar a atenção das meninas. Estava à frente da moda. À noite, quando deixava o Ponto dos Amigos, sempre aparecia com novidades. Lembro-me da calça-balão e da camisa branca de mangas cumpridas que vestiu para ir ao Palmeiras Clube. Não tinha como não chamar a atenção para si. Mesmo assim, não arranjava nada.
Nem as bicicletas novas que comprava lhe ajudavam. Nem as que mandava enfeitar: colocava retrovisor no guidão, brilhava os raios e até estofado colocava na garupa. Mas nada disso o ajudava. Apenas aumentava seu sofrimento.
Sua angústia chegou ao extremo quando começou a perceber que toda a garotada de seu tempo já estava casada. Passou então a se achar o rapaz mais feio do mundo. Perturbado com isso, tentou dar fim à própria vida por várias vezes. E todas as vezes foi salvo.
O drama do Bitinho não parou por aí. Pelo contrário, aumentou. Aumentou no dia em que soube que o Claudemir, com quem partilhava as angústias, havia casado. Claudemir era seu grande amigo. Bitinho o julgava mais feio do que ele.
O casamento do amigo era a senha. Estava na hora. Mas achou que sua família inteira também deveria morrer. Ofereceu-se então para fazer o almoço. Era um caldo de tambaqui. Sem remorso algum, Bito adicionou veneno para rato e chamou a mãe e os irmãos para comer.
Foi nesse dia que sua mãe, com a criança no colo, e seus irmãos saíram correndo para a rua. Na hora em que o seu irmão mais novo colocou a colher no prato, Bitinho se arrependeu e falou do tempero que havia usado. Com o histórico suicida dele, ninguém pensou duas vezes. Lembro-me ainda hoje dos gritos de sua mãe depois que ele fechou a janela e a porta: “Meu filho, não vai comer isso! Você é o meu filho lindo!”.
Desde esse dia, Bitinho sumiu da rua. Encontrei-o esta semana. Estava a bordo do 301. Levantei para falar com ele, mas, ao me aproximar da cadeira onde sentava, vi o Bitinho, concentrado, de mãos dadas com uma jovem muito simpática.
*Filósofo, mestrando do programa de Pós-Graduação, Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
Ilustração: Myrria.
