Militão Beré e a hermenêutica da surpresa
Antenor e Aldenor Ferreira aproximam Pierre Bourdieu da experiência do Pega na Hora, criado por Militão Beré, para mostrar como o futebol pode suspender temporariamente as classificações sociais e abrir espaço para a surpresa.
Por Antenor Ferreira e Aldenor Ferreira*
Publicado em: 24/07/2026 às 16:32 | Atualizado em: 24/07/2026 às 16:32
Pierre Bourdieu tornou-se um dos principais intérpretes das sociedades contemporâneas ao demonstrar que a vida social é menos resultado de escolhas livres do que de disposições incorporadas ao longo da existência.
Antes mesmo de refletirmos sobre nossas ações, já carregamos maneiras de perceber, sentir e agir que foram socialmente aprendidas. É o que o sociólogo francês chamou de habitus.
Da mesma forma, cada espaço da vida social – a escola, a política, o esporte, a universidade – estabelece regras, hierarquias e possibilidades que delimitam aquilo que cada indivíduo pode ou não alcançar.
Essa leitura permanece extraordinariamente atual. Ela ajuda a compreender por que as desigualdades tendem a se reproduzir e por que certos percursos parecem quase naturais, quando, na verdade, são construções históricas.
O diploma é um bom exemplo. Em Bourdieu, ele não representa apenas um certificado de conhecimento. É também um reconhecimento social que confirma uma posição, legitima uma trajetória e projeta expectativas sobre o futuro.
Ao mesmo tempo em que abre oportunidades, fixa identidades. Depois dele, espera-se que cada indivíduo ocupe determinado lugar no mundo.
Mas talvez existam experiências capazes de interromper, ainda que por instantes, essa lógica. Era isso que Militão Beré, no interior do município de Nhamundá/Am parecia construir, sem jamais recorrer à linguagem da sociologia.
Quem conheceu o tradicional time de futebol “Pega na Hora”, ou também chamado de “Pega na Hora do Militão Beré”, lembra que ali não havia seleção prévia, elenco definido nem qualquer critério relacionado à reputação dos jogadores.
O Pega na Hora e a suspensão das hierarquias
O time surgia no próprio campo. Militão chegava, esperava as pessoas aparecerem e organizava a partida com quem estivesse disposto a jogar. Não importava quem havia sido campeão no domingo anterior, quem costumava ser titular ou quem nunca tinha encontrado espaço em outra equipe.
Durante algumas horas, a única condição necessária era querer participar. Vista de longe, essa prática podia parecer apenas uma maneira simples de organizar uma partida de futebol de várzea. Vista mais de perto, revelava algo maior.
Enquanto o diploma confirma aquilo que uma pessoa já acumulou, o “Pega na Hora” apostava justamente no que ainda permanecia indefinido. Em vez de consolidar posições, suspendia temporariamente as classificações que organizam a vida cotidiana.
Não eliminava as diferenças entre as pessoas, mas fazia com que elas perdessem importância durante o tempo do jogo.
Ali, o jogador que normalmente ficava de fora encontrava espaço para entrar em campo. O perna-de-pau escolhia posição. O rejeitado vestia uniforme. Não se tratava de uma revolução contra as estruturas sociais nem da construção de um mundo sem desigualdades.
Era algo mais discreto e, talvez por isso mesmo, mais interessante: durante algumas horas, a lógica que normalmente distribuía lugares deixava de operar com toda a sua força. É nesse ponto que a experiência de Militão dialoga com Bourdieu.
O sociólogo francês nunca afirmou que as estruturas fossem absolutas. Seu argumento era outro: elas orientam fortemente nossas possibilidades de ação.
O “Pega na Hora”, por sua vez, mostrava que essas estruturas não esgotavam completamente o real. Ainda havia espaço para acontecimentos que escapavam às classificações habituais.
A hermenêutica da surpresa
Talvez seja essa a verdadeira hermenêutica da surpresa. Não consiste em negar a existência das estruturas sociais, mas em reconhecer que elas nunca conseguem controlar inteiramente a experiência humana.
Essa diferença aparece também na maneira como ambos lidam com os nomes. Bourdieu ensinou que os nomes classificam. Eles distinguem, hierarquizam, distribuem prestígio e produzem pertencimentos. Nomear alguém é também situá-lo dentro de determinada ordem social.
No caso do “Pega na Hora”, porém, o nome parecia cumprir outra função. Ele não identificava um grupo previamente formado nem descrevia uma equipe existente. Funcionava como uma convocação.
Quem escutava seu anúncio não recebia uma identidade pronta; recebia um convite para participar de algo que ainda estava por acontecer.
Essa talvez fosse a maior singularidade do time de Militão Beré. Seu futebol não organizava o passado dos jogadores. Organizava um presente compartilhado.
Os autores são sociólogos*.
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
