O amor nos tempos da cólera
Publicado em: 21/10/2008 às 00:00 | Atualizado em: 21/10/2008 às 00:00
Ana Celia Ossame*
A humanidade precisa rever seu conceito de amor. Penso nisso depois do final trágico do seqüestro da adolescente Eloá, 15 anos, praticado de forma fria e calculista pelo ex-namorado dela Lindemberg Fernandes Alves, 22. Eloá foi mantida em cativeiro por mais de 100 horas até os disparos fatais. Dizer que isso foi uma demonstração de amor é atentar contra a mais frágil inteligência.
É preciso deixar claro, para não confundir a cabeça das crianças e de adolescentes, quais gestos podem ser classificados como de amor. Quem ama é incapaz de violência, a não ser para defender alguém querido de um mal, o que não era o caso. Quem ama não agride, não maltrata e não machuca. Para confirmar isso, basta ir ao dicionário da língua portuguesa. Qualquer desses livros explica que amor traduz afeição, compaixão, misericórdia, atração, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido etc.
É pouco? Vamos aos filósofos da Grécia antiga. Platão falava de um amor ideal, que seria a falta, a verdade essencial que a pessoa não possuía e buscava no ser amado, traduzido erroneamente, segundo os especialistas, como amor impossível, o famoso amor platônico. Em nenhuma hipótese Platão falava em agressão, intimidação, humilhação e covardia.
O amor está bem definido também na Bíblia. O apóstolo Paulo o examina com uma delicadeza e sabedoria que atravessam os séculos sem perder o vigor e a simbologia. Mostra que o amor é a força de Deus e daqueles que O seguem. Quem ama é paciente, não arde em ciúmes, não se ufana e nem se ensorbebece, escreveu o seguidor de Jesus, este o maior exemplo do que se pode ter de amor como fonte de inspiração para os éticos, os puros de coração, os humildes e os honestos. Tudo o que o Lindemberg ignorou.
Cabe perguntar: cadê os pais desse jovem, por que não foram chamados a intervir e tentar demovê-lo da fúria sanguinária? Certamente já o tinham abandonado há muito, contribuindo para fazer crescer nele essa personalidade doentia capaz de atitudes tão trágicas.
O título deste artigo empresta o do livro do escritor Gabriel Garcia Marques, “O amor nos tempos do cólera” , como uma provocação. Nele, Marques conta a história de um cidadão que soube amar e esperar. Na mocidade, o telegrafista Florentino apaixona-se perdidamente por uma jovem que, seguindo os conselhos do pai, rejeita o assédio, casando-se com um médico famoso da cidade. Isso fez Florentino esperar nada menos que 51 anos, 9 meses e 4 dias até a morte do rival para se reaproximar da amada. O final é memorável. Os dois juram amor eterno e ficam juntos. Quer mais amor que isso?
Lindemberg jamais experimentará essa sensação, por viver no tempo da cólera, da ira, da raiva cultivada silenciosamente nos seus 22 anos de existência. Com o fim do caso, a mídia vai se recolher e ele ficará só, sem a audiência que, quem sabe, pode tê-lo animado a permanecer com a arma em punho e não aceitar qualquer argumento. Ficará também sem Eloá que, queria por força nos convencer, seria sua amada ideal.
Ficam lições para nós, jornalistas, que precisam ser alvos de discussões e debates nos sindicatos e redações. Em que a imprensa contribuiu para esse desfecho trágico? É claro que o louco era o Lindemberg, mas será que sem essa exposição toda o caso poderia ter tido outro final? Ficam lições também para a sociedade capaz de construir pessoas tão doentes. Tentar saber onde tudo começou pode ser um bom começo para se refletir.
Para não engolirmos toda a amargura desse caso voltemos ao apóstolo Paulo. Ele disse que tudo desapareceria, as profecias, as línguas, até a ciência. Menos o amor, que permaneceria para sempre. Vamos espalhar esse sentimento. Vamos nos contaminar de amor para evitar que outras jovens como Eloá sejam vítimas de venenos tão fulminantes quanto o ódio produzido, em grande escala, em famílias onde não há tempo para o respeito, o diálogo, atenção ou simplesmente o amor.
* Jornalista, poeta, pós-graduada em Marketing pela FGV.
