Manaus: a cidade-criança

Publicado em: 24/10/2009 às 00:00 | Atualizado em: 24/10/2009 às 00:00

Neuton Corrêa*
Manaus completa hoje 340 anos de idade. Nem parece. Ainda é uma criança, aos olhos de sêo Amaral, o vendedor de merenda da parada de ônibus do Inpa, onde costumo tomar cafezinho antes de entrar no jornal.

Conheço sêo Amaral desde o tempo em que o empreendimento dele era apenas um tabuleiro de madeira com divisórias para separar os bombons das gomas de mascar de todas as marcas. A garrafa de café que ele levava, e a mantinha escondida debaixo da mesa, só aparecia em momentos raros, quando ele oferecia cafezinho aos clientes mais chegados.

Recentemente, ele ampliou o empreendimento. A mesinha improvisada deu lugar a uma armação metálica coberta com uma lona azul, onde mantém as caixas de bombons, montou uma vitrine de vidros para salgadinhos e tem um freezer com água, refrigerantes e sucos.

Lembrei-me dele hoje por causa da resposta que me deu, num dia em que lhe perguntei o que achava da cidade. E ele, com a tranquilidade e a sabedoria de seus setenta e poucos anos, respondeu: “Manaus é como uma criança: só faz crescer”.

Não sei sob qual perspectiva ele falava. Nem dava para aprofundar a conversa. A brevidade do encontro e o movimento da clientela do meio-dia impediam. Só não dava para deixar de perceber que a frase se traduzia na mais profunda definição que já ouvi sobre o lugar que escolhi para morar há dez anos.

Talvez estivesse falando apenas do crescimento que testemunhou em mais de sete décadas. A Manaus de hoje não é mais a mesma do tempo que cheguei por aqui. Muito menos semelhante a que seus olhos viram crescer desde a infância.

Sinceramente, poderia imaginar mil coisas sobre sua frase, mas não conseguiria penetrar o sentimento que o movia para comparar uma cidade de mais de três séculos com uma criança. Porém, isso não me impede de perceber o poder de imaginação que ela produz.

Desde o dia em que sêo Amaral me disse que Manaus era uma criança, por exemplo, imaginei a cidade como uma menina peralta, feliz, mas ao mesmo tempo desprezada, abandonada, órfã.

Mil coisas me ocorreram desde aquela conversa. Até pensar que todo dia, no fim de tarde, a cidade-criança convida para brincar. Quer que eu fique mais tempo com ela na rua. Mas toda vez estou cansado, estressado, sem tempo. Além do mais, não vejo graça nenhuma em brincar de engarrafamento.

Talvez não seja um convite, mas um apelo, um grito. Afinal, a criança quando não é ouvida, chora. Quem sabe não seja isso que sêo Amaral tenha falado: Manaus é uma criança e precisa de 1,6 milhão de pais.

*Filósofo, mestrando do Programa Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam).

Tags