Francisco e a Igreja

Publicado em: 21/03/2013 às 00:00 | Atualizado em: 21/03/2013 às 00:00

Wilson Nogueira*

O mundo, pelo que se viu na mídia, alegrou-se com o novo papa. O argentino Jorge Bergoglio, o papa Francisco, emitiu mensagens de amor, esperança e, sobretudo, de humildade. Tudo o que um mundo conturbado pela insensatez, pela violência e pela ganância gostaria de ouvir do representante de uma igreja com mais de 1,2 bilhão de fiéis. Mas entre as convicções da sua devoção aos pobres e os interesses terrenos da Igreja existe um abismo a ser superado que, inevitavelmente, causará embaraços aos desejos do líder religioso diante dos imperativos das suas funções de chefe de estado.

De imediato, o que se pode dizer é que Francisco, nesses primeiros dias de papado, reafirmou as suas práticas devocionais a São Francisco de Assis, que, depois de viver a juventude na luxuria, recolheu-se a uma vida religiosa de completa pobreza. Francisco recusou o luxuoso cerimonial do Vaticano e clamou por uma Igreja pobre para os pobres. Seu protesto à ostentação veio, principalmente, por meio de gestos, ao não permitir que sua hospedagem, ainda na condição de cardeal, fosse paga pelo Vaticano; na dispensa do carro papal para deslocamento na cidade-estado; no uso do crucifixo de ferro etc.

Jorge Bergoglio incitou a magnanimidade e a gratidão ao comunicar, em coletiva de imprensa, que deve ao cardeal de São Paulo, Cláudio Hummes, a homenagem do seu papado a São Francisco de Assis, santo que orienta a Igreja na direção do acolhimento aos subjugados por aqueles que detêm poder e dinheiro. Nada mais justo e coerente para uma Igreja que tem Cristo como fundador, o filho de Deus que pregou o perdão contra a violência, a paz contra a guerra, a humildade contra a arrogância, o amor contra o ódio e a esperança de um sempre mundo melhor.

Francisco se anunciou um líder em favor da boa convivência entres as diversas religiões do mundo. Diferentemente do seu antecessor, o cardeal alemão Joseph Ratizing, o papa Bento 16, que provocou o islamismo e criou mal-estar entre as duas religiões com maior número de fiéis no mundo. Religiões são, acima de tudo, culturas e assim devem ser compreendidas e respeitadas, ao menos pelos líderes religiosos sensatos. Francisco assume o papado com a esperança do cidadão argentino que usava o transporte público em Buenos Aires e que habitava um acanhado quarto atrás da catedral que dirigia.

Não esqueçamos, porém, que a Igreja faz parte do sistema-mundo de poder, porque a religião não se resume a uma fé ascética, ela transita nas esferas da política, da economia e da moral. A história monstra que a Igreja ajuda a construir e a destruir regimes e sistemas de governo; que se envolve em escândalos financeiros; e que acoberta, em larga medida, crimes de pedofilia e abuso sexual de seus membros – dos menos aos mais graduados. A primeira impressão que Francisco causa é a de que ele veio “do fim do mundo” para ensinar os bons costumes a uma Igreja contaminada pela hipocrisia.

Esperemos o melhor de um ser humano cheio de bons propósitos, mas não devemos nos iludir de que as estruturas da Igreja, com mais de dois mil anos de existência, se renderão às modificações mais radicais esperadas por seus fiéis e pela própria humanidade, como a de uma Igreja voltada para os pobres. Francisco revela ao mundo um sonho idêntico ao do cardeal Albino Luciani (Papa João Paulo I), eleito, em 1978, sucessor de Joao Paulo VI, aclamado pelos fiéis como “Papa Sorriso”. Albino Luciani também queria uma Igreja mais próxima dos pobres, mas, infelizmente, veio a falecer 33 dias após se torar papa. Jorge Begoglio, de certa forma, reacende a esperança do Papa Sorriso, personagem pouco lembrada entre os papas contemporâneos.

É preciso que se diga que a provável Igreja franciscana não terá nada a ver com um possível retorno do marxismo cristianizado da Teologia da Libertação, movimento político-religioso que ajudou a derrubar ditaturas na América Latina, nas décadas de 1960, 1970 e 1980. O então cardeal Jorge Bergoglio, por sinal, vivia às turras com a presidenta da Argentina, Cristina Kischner, simpática ao socialismo do século 21 de Hugo Chaves, que instituiu na Venezuela uma república bolivariana. Francisco é conservador acima de tudo.

* O autor é jornalista

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