Calção de cordinha de punho de rede

Publicado em: 16/04/2011 às 00:00 | Atualizado em: 16/04/2011 às 00:00

Neuton Corrêa*

Ilustração: Myrria

As lembranças da infância se sucederam no busão depois que a mocinha embarcou no 014 à altura do Hospital Pronto-Socorro João Lúcio, na Zona Leste. Tudo porque a menina vestia um calção que não sossegava em sua cintura. Virava e mexia e lá estava a garota a pôr a mão no cós e dar uma reboladinha no corpo para assentar a roupa.

Ela fez esses movimentos umas três vezes sem que eu tivesse me atentado para a riqueza do gesto. Sim, um gesto rico, para mim. E mais rico ficou quando ela resolveu dar uma solução mais duradoura ao calção frouxo: puxou uma cordinha de punho de rede, esticou uma ponta para um lado e outra para o outro, cruzou-a como um xis (x), apertou a corda com um laço, escondendo-o na própria roupa.

Observando aquilo, perguntei ao parceiro de viagem, um sociólogo de meu tempo de faculdade, se aquela cena lhe lembrava alguma coisa, e ele, interrompendo o assunto político que conversávamos, sacudiu a cabeça negativamente. E continuei instigando-o: “Você usou alguma vez calção de cordinha de punho de rede?”

Sem esperar a resposta, contei-lhe que eram minhas roupas preferidas na infância. Quando eu percebia que minha mãe ia para a máquina de costura renovar meu uniforme do dia a dia, corria para perto para pedir-lhe que não colocasse elástico. Preferia mil vezes um calção amarrado na cintura.

A preferência é explicável, amigas e amigos do busão. Cueca foi coisa que só conheci quando estava na 6ª série, portanto, quando eu já era adolescente, aos doze anos de idade. Lembro-me muito bem da primeira. Uma peça de três cuecas de copinho que minha mãe comprou na João Melo, até então a única rua do comércio de Parintins.

Pois bem. Como eu era desprovido desse privilégio, sofria nas mãos dos adultos. Um deles era o Beto, que esperava a curuminzada se reunir, vinha por trás e, com um puxão, deixava o calção da gente no calcanhar. Com a corda de punho de rede, não. Sentia-me protegido desses bullyings, que, na época, não tinha esse nome sofisticado. Chamava-se judiação mesmo.

Assim que acabei a viagem ao túnel do tempo, meu amigo começa a história dele:

“Sabe do que eu tenho saudade da minha infância? Eu tenho saudade das conservas de carne e de sardinha enlatada. Tanto que meu sonho, quando moleque, era comer só eu uma lata de sardinha.

Lá onde a gente morava, a comida favorita era essa: conserva e sardinha. Os quintais eram cheios dessas latas. Era tanta lata que os cachorros do bairro eram conhecidos como “língua cortada”.

Ria da história de meu amigo, imaginando a cena do cachorro metendo a boca para tentar tirar um restinho de carne da lata afiada, quando outro passageiro, que ouvia nossa conversa, falou:

“Pô, vocês falando aí me lembraram do meu sonho de infância. Meu sonho era comer só eu uma lata de Leite Moça. Um dia eu consegui. Capinei o quintal de um vizinho e a primeira coisa que fiz com o dinheiro que ele me deu foi correr para taberna do seu Zé para comprar uma.

Sabe o que eu fiz? Peguei uma linha comprida e fui pescar no rio Negro. Deixei o Leite Moça no meu lado, com um buraquinho de prego para não sair tudo só duma vez. Tomei tudo, realizei meu sonho, mas depois…”.

O amigo desse passageiro também tinha outra história para contar, mas eu já havia chegado ao local onde desembarcaria. E desembarquei.

Ah, não sei onde menina do calção de cordinha de punho de rede desceu.

*Filósofo e escritor.

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