Briga de amigos
Publicado em: 01/12/2011 às 00:00 | Atualizado em: 01/12/2011 às 00:00
Neuton Corrêa*
A luta entre os dois amigos estava boa, boa para assistir. Só não ficou melhor porque o busão atrapalhou. A peleja começou no bar e foi parar na viela, onde, para passar um carro, o outro precisa pedir permissão, porque, juntos, os dois não cruzam a via de jeito nenhum, sob pena de se baterem. É claro que quem conhece já sabe que estou falando do bairro Alvorada. Pois foi nesse lugar de ruas apertadas e trânsito intenso que eles resolveram medir forçar e tirar a limpo as diferenças.
Ninguém se meteu na querela. Eles ficaram à vontade, até porque todo mundo os via dia e noite secando milimetricamente, gole a gole, a garrafa cheia de aguardente. Ao contrário, houve quem ajudasse a formar o ringue para que eles estivessem protegidos para trocação de socos, dos quais 99,9% não atingiam o oponente, e o percentual que restava chegava sem violência. O bom era ouvir o que eles diziam, cheios de si, da maldita e de sabedoria.
E essas coisas que eles falavam podiam ser ouvidas fora do cinturão de gente que se formou para assistir à briga. Dessas sábias frases que eles pronunciavam, algumas o Antônio, colega de trabalho que me contou esse episódio, ainda recorda. Eram coisas do tipo: “Vem, pode vir, chapéu de otário é marreta” ou “Quarenta anos (talvez a idade de um deles) de lagoa, perder pra sapo?” E por aí foi o Antônio, que jura não ter feito parte da plateia, narrando detalhes que me custaram a acreditar.
Mas não era difícil deixar de crer. Eu mesmo fui testemunha de algo semelhante em 1989, quando cumpria serviço militar obrigatório, em São Gabriel da Cachoeira. A briga envolveu dois parceiros de farda, dois infantes, dois combatentes de selva, o 1460 (cabo Inácio) e o 1489 (soldado Gama). Eu era o 1481 (cabo Corrêa). Os dois brigaram por causa de fila para o almoço. Um queria passar na frente do outro. O Gama, mais forte do que o Inácio, agrediu o superior, que lhe aplicou uma garfada. Nada grave.
O problema, amigas e amigos do busão, é que a confusão chegou ao conhecimento do Comando da 1ª Cia de Selva e o julgamento sumário do caso ocorreu duas horas depois da briga, na formatura da tarde (no quartel é assim: formatura toda hora).
Inácio e Gama foram chamados para frente do grupamento e interrogados ali mesmo, na frente da tropa. Como não souberam ou não quiseram explicar as razões das agressões, o comandante, com ordens de “direita volver” e “esquerda volver”, abriu um corredor de mais ou menos quatro metros entre os pelotões reunidos e ordenou que os dois continuassem a luta iniciada antes do almoço. E eles lutaram, lutaram, lutaram, lutaram. Lutaram! Até que, sem força, resolveram cessá-la, entreolhando-se, rindo e se abraçando por ordem oficial.
Assim como aconteceu com meus colegas de quartel de fronteira, os amigos do bar do bairro Alvorada, também se cansaram, contou Antônio. Cansaram-se ao ponto de dormir na rua e obrigarem os carros a desviarem-se deles.
Um dos veículos, porém, não pôde parar. Era um ônibus, daqueles verdes que passam por lá. Nessa hora, um deles recobrou o juízo e se levantou, olhou para o lado e auxiliou o parceiro a sair dali, mas quando a plateia achava que a confusão já havia terminado, depois que o ônibus passou, eles voltaram para rua e recomeçaram a briga.
*Escritor, filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
