A outra meta
Publicado em: 14/09/2012 às 00:00 | Atualizado em: 14/09/2012 às 00:00
Ivânia Vieira*
Há um recorde não contabilizado pela mídia na maioria das abordagens sobre a greve dos professores universitários e a consequência dela. Professores, em função de um modelo de educação ainda fortemente cultuado no Brasil, são trabalhadores anônimos e colocados à margem dos processos de desenvolvimento periodicamente adotados pelo País. São tratados como estorvo quando deveriam receber dos governos e da sociedade um tratamento marcado pela atenção e com respeito à dignidade da qual são portadores.
A desestruturação da carreira de professor, como ora se assiste, não afeta isoladamente à sanidade dessa categoria. Ao contrário, expõe o nível de afastamento ao qual ela foi empurrada pelos governos.
A educação como prioridade elimina do discurso a figura do professor. Irônico e trágico, pois a tarefa desse profissional é promover o desenvolvimento intelectual, físico, moral, enfim ajudar na formação crítica dos estudantes e no estabelecimento de competências nas diferentes áreas. Ensino, pesquisa e extensão são um trabalho árduo, feito no cotidiano e nas condições mais precárias. Nessa tripla atuação, todos os dias, professores constroem uma rede para salvar vidas pela busca permanente do conhecimento.
Caminhei até aqui porque professores passaram pela minha vida provocando mudanças e continuam provocando inquietações. Ensinaram-me a ler e a ter necessidade de fazer novas leituras, a ter coragem e esperança, a questionar realidades e injustiças.
Professores universitários não têm auxílio-moradia, para o transporte, o telefone nem à aquisição de livros. Hoje, muitos professores estão doentes como resultado de anos de uma batalha invisível para a qual não há vale-saúde. Essa consequência não entra na lista dos danos apresentados nas reportagens sobre a greve.
A meta de viver dignamente porque se é professor não pode ter peso menor do que as outras metas. Professores são pessoas que lutam contra o desengano que consome, imobiliza e conforma o mundo.
* Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.
