A denúncia das águas
Publicado em: 20/05/2009 às 00:00 | Atualizado em: 20/05/2009 às 00:00
Ivânia Vieira*
As águas avassaladoras, dos rios e das chuvas, não apenas transformam radicalmente os cenários. Carregam na sua força a tragédia de milhares de famílias e a denúncia crua do preço pago pelas vítimas e pelo contribuinte pela omissão continuada dos gestores públicos, pelo pacto de morte firmado entre representantes da Justiça, do Legislativo, do Executivo e grupos sociais.
Em nome de uma Justiça de curto alcance, de um Executivo e um Legislativo atrofiados, as ações de prevenção são transformadas em outras práticas igualmente tortas e viciadas na política rasteira. Que lição a população e os integrantes do Judiciário, do Executivo e do Legislativo aprenderam com a enchente de 1953? É um acontecimento historicamente recente e com ensaios posteriores, como uma advertência clara a todos.
As condições de monitoramento avançaram, a produção de conhecimento nesse campo cresceu e vem sendo qualificada, uma série de órgãos e sistemas altamente sofisticados foi criada com a finalidade de reunir, antecipadamente, indicadores tecnicamente confiáveis para a tomada de decisão. O que está sendo feito efetivamente com o conhecimento produzido? De que forma o governo estadual o utiliza? Ou ele é ignorado, mantido na prateleira?
Da parte da imprensa, temos falado do número dos mortos, dos desabrigados, da produção perdida, com um depoimento aqui e outro acolá das vítimas. O que é importante mostrar. Mas falta inquietação para saber quais as respostas que a estrutura de ciência montada, por exemplo, no Estado do Amazonas, pode oferecer e como os governos do Estado e dos Municípios e as organizações sociais a utilizam.
Em Manaus, a TV e as fotografias estampadas nos jornais mostram a urgência de trabalhar em meio a esse drama a formação de sujeitos com novas atitudes. A água agora ocupando o primeiro assoalho das casas leva ao público todo o lixo lançado naturalmente, todos os dias, para o lado de fora, no igarapé, no esgoto, no rio… Colchões, restos de fogões, garrafas plásticas, absorventes, fraldas descartáveis, pedaços de isopor estão lá cobrando co-responsabilidade.
O pacto pode permanecer em vigência repetindo-se por anos seguidos ou ser rompido, se houver determinação política, e assim, ser inscrita uma outra página na nossa história.
*Jornalista e professora do Curso de Comunicação da Ufam.
