Pressão dos EUA força brasileiros a fugir do ‘sonho americano’

Famílias relatam medo de ações do ICE; deportações, tensão e retorno precoce ao Brasil ganham força.

Publicado em: 30/11/2025 às 07:57 | Atualizado em: 30/11/2025 às 08:07

O clima entre imigrantes mudou nos Estados Unidos (EUA). De acordo com um levantamento nacional da KFF (Kaiser Family Foundation), em parceria com o The New York Times, constata-se que 1 em cada 5 imigrantes afirma conhecer alguém preso, detido ou deportado desde janeiro.

Quatro em cada dez dizem temer que eles próprios, ou familiares, se tornem alvo das operações conduzidas pelo ICE (polícia de imigração).

Esse ambiente de medo acelerou decisões de retorno. Brasileiros que migraram buscando estabilidade agora desfazem planos e recomeçam no Brasil antes da hora.

A história de Silvia Santos resume o movimento. Moradora de Sarasota, Flórida, ela embarca em 10 de dezembro para São Luís. A mãe sofre uma doença neurológica grave, e Silvia decidiu não permanecer no país diante das batidas migratórias. Mesmo com número de Social Security e permissão de trabalho, ela descreve uma rotina sem apoio e sob tensão:

“A gente vive para pagar conta. Não sobra.”

Sem família por perto e com a filha de 9 anos, Silvia passou a temer uma abordagem de imigração.

“A gente já viu gente sendo deportada mesmo com processo em andamento. Eu não me vejo tão segura, sabe? Nesse momento, eu não ficaria ilegal aqui.”

Ela menciona separações envolvendo famílias brasileiras:

“Teve o caso de uma brasileira que foi presa e a filha não achava a mãe. Foi parar em outro lugar.”

Portanto, ao decidir partir, Silvia associa o gesto a proteção emocional: “Minha filha não tem infância aqui. A gente trabalha tanto que não vive. E eu quero que ela viva.”

Já em outro cenário, o exemplo vem de Nova York. Geovanne Danioti chegou em 2022 e convive com os dois filhos, cidadãos norte-americanos, e a esposa com green card. O visto dele expirou.

“Eu saio de casa com medo. Vou só do trabalho para casa. Aqui onde eu moro você só vê carro do ICE. Todo dia prendem cinco ou seis pessoas.”

Depois que um amigo foi deportado durante uma audiência por infração de trânsito, a família decidiu partir. “Vamos resolver tudo no Brasil e, quando estiver legal, voltamos no ano que vem. Começo de 2027 no máximo.”

Paradoxo

Apesar disso, a pesquisa revela um paradoxo: 70% dos imigrantes entrevistados dizem que migrariam de novo. O mito do “sonho americano” resiste, mesmo quando a vida se resume a evitar uma blitz migratória.

Nos números do governo americano, o efeito é visível. O Departamento de Segurança Interna dos EUA estima que 1,6 milhão de pessoas solicitaram autodeportação neste ano. Entre brasileiros, as estatísticas oficiais ainda estão em processamento, mas seguem a mesma tendência registrada pelo Itamaraty: repatriações cresceram desde 2024.

Há também a saída “interna”: imigrantes mudam de estado para onde o ICE atua menos, tentando ganhar tempo e proteger os filhos norte-americanos até a próxima operação.

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Foto: divulgação/Zerando Mundo