STF não pode cometer erro que STM cometeu com Bolsonaro
Há 38 anos, Exército perdoou e depois bateu continência a capitão que tantou explodir instalações militares. Hoje, paga preço alto pela anistia, que o país não pode mais conceder
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 02/09/2025 às 07:33 | Atualizado em: 02/09/2025 às 08:48
Em 1987, o então capitão Jair Bolsonaro foi acusado de planejar atentados contra instalações militares como forma de protesto contra os baixos salários da tropa. A chamada “Operação Beco Sem Saída” previa explodir bombas em banheiros da Vila Militar da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ). Ele tramava também explodir a adutora do Guandu, que abastece de água o Rio de Janeiro.
Por causa disso, o Conselho de Justificação Militar o considerou culpado e recomendou sua expulsão do Exército. No entanto, em junho de 1988, o Superior Tribunal Militar (STM) decidiu absolvê-lo por falta de provas, numa votação dividida.
Perdão virou trampolim político
O resultado foi emblemático: Bolsonaro deixou o Exército pela porta da frente. Dessa forma, preservou a patente de capitão, e em seguida iniciou sua carreira política. O episódio que poderia ter encerrado sua trajetória pública, na verdade, serviu de trampolim para a vida parlamentar.
De capitão a presidente
Décadas mais tarde, o capitão absolvido se tornaria presidente da República. No cargo, novamente, se veria às voltas com acusações de conspirar contra a ordem democrática. As investigações sobre a tentativa de golpe após as eleições de 2022 resultaram em denúncias contra Bolsonaro e, de forma inédita, levaram ao banco dos réus três generais de quatro estrelas, a mais alta patente do Exército brasileiro.
Paralelo
O paralelo é inevitável. Nos anos 1980, as instituições militares tiveram a chance de dar uma resposta firme a um oficial acusado de planejar atentados, mas recuaram. Hoje, diante da mais grave ameaça à democracia desde a redemocratização, o Brasil, dessa vez por meio do Supremo Tribunal Federal (STF) não pode repetir esse erro.
O julgamento da intentona golpista não é apenas sobre Bolsonaro e seus aliados. É também um teste para as instituições republicanas, que precisam mostrar à sociedade que ninguém está acima da lei — nem ex-presidentes, nem generais, nem oficiais de ontem ou de hoje.
Se o Exército foi leniente no passado, cabe agora ao Judiciário, por meio do Supremo, e ao Ministério Público garantir que não haja espaço para novas anistias de conveniência. A democracia brasileira não sobreviverá a outra absolvição que se confunda com conivência.
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Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
