Tarcísio quer anistia para Bolsonaro, mas não demais
Movimento expõe estratégia de manter ex-presidente fora da cadeia e do pleito, sem comprar briga total com o STF.
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 04/09/2025 às 18:00 | Atualizado em: 04/09/2025 às 17:35
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), vestiu a camisa da anistia a Bolsonaro antes mesmo de o Supremo Tribunal Federal (STF) julgar e condenar o chefe da organização criminosa do plano de golpe contra o Brasil.
Mais do que um gesto de lealdade, conforme analistas políticos, a iniciativa revela um cálculo político sofisticado: manter Bolsonaro fora da prisão, mas, sobretudo, fora da disputa presidencial de 2026.
Ao justificar sua posição, Tarcísio declarou publicamente não confiar na Justiça brasileira e chegou a afirmar que, se estivesse na Presidência, concederia indulto a Bolsonaro.
“Se fosse presidente e ele fosse condenado, daria o indulto. Eu não confio na Justiça brasileira”, disse, em entrevistas recentes.
Afronta calculada ao STF
A ofensiva não passou despercebida na corte. Já há denúncia no STF contra o governador por supostamente afrontar a Justiça ao se manifestar de forma incisiva contra um julgamento ainda em curso.
O movimento, porém, parece calculado: a reação de ministros e setores jurídicos reforça, para sua base, a imagem de político combativo que enfrenta “o sistema”.
O risco de tensionar as relações institucionais é compensado, no curto prazo, pelo ganho de capital político junto à militância, especialmente a parcela mais fiel e ativa nas redes sociais e nas ruas.
De olho em 2026
Nos bastidores, analistas apontam que a defesa enfática de Bolsonaro funciona como uma ponte para a sucessão presidencial.
Tarcísio sabe que, se o ex-presidente for mantido inelegível, herdará parte natural desse eleitorado.
E, se por algum motivo Bolsonaro recuperar a possibilidade de concorrer, o gesto de lealdade pode garantir-lhe protagonismo na chapa ou apoio em outra disputa nacional.
Esse jogo duplo, de lealdade e autopreservação, é o que faz a defesa da anistia soar como “meia defesa”: generosa o suficiente para manter viva a ligação com a base bolsonarista, mas sem mergulhar num confronto sem volta com o Judiciário.
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Recado à bolha
Ao colocar o tema no centro do debate antes mesmo da sentença, Tarcísio envia um recado claro à “bolha” bolsonarista: ele está disposto a lutar. O gesto é simbólico, mas eficaz para consolidar sua posição como sucessor natural, ainda que sob o manto de “candidato de centro-direita” para setores mais amplos do eleitorado.
Se o cálculo der certo, Tarcísio reforça sua imagem nacional sem comprometer sua governabilidade em São Paulo.
Mas, se o STF endurecer o tom ou se a aposta na anistia gerar reação negativa fora da bolha, o custo político pode ser alto, e aí o jogo de 2026 ganha novos contornos.
O que Tarcísio ganha e o que arrisca
O que ganha
- • Capital político junto à base bolsonarista, essencial para qualquer projeto presidencial.
- • Protagonismo nacional como defensor de Bolsonaro, mesmo sem vínculo orgânico com o PL.
- • Imagem de lealdade e combatividade, útil para 2026 caso Bolsonaro esteja fora da disputa.
O que arrisca
- • Conflito institucional com o STF, podendo gerar desgaste jurídico e político.
- • Perda de apoio moderado se for visto como radical ou anti-institucional.
- • Dependência da sorte de Bolsonaro: se o ex-presidente for reabilitado, Tarcísio pode virar coadjuvante.
Tarcísio e a defesa de Bolsonaro
- ● Janeiro/2023 — Após os ataques de 8 de janeiro, Tarcísio evita condenar diretamente Bolsonaro e critica “generalizações” contra apoiadores.
- ● Junho/2023 — Durante processo no TSE que resultaria na inelegibilidade de Bolsonaro, declara “confiança no povo” e insinua perseguição política.
- ● Março/2024 — Em evento com aliados, volta a criticar decisões do STF e defende “harmonia entre os poderes” com recado implícito contra investigações.
- ● Agosto/2024 — Afirma que, se fosse presidente, concederia indulto a Bolsonaro caso ele fosse condenado.
- ● Agosto/2025 — Assume publicamente a bandeira da anistia antes do julgamento, declarando “não confiar na Justiça brasileira” e sendo denunciado no STF por afronta à Corte.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
