Racha no clã Bolsonaro expõe isolamento de Carlos em Santa Catarina
Disputa ao Senado em Santa Catarina revela divergências entre Michelle e filhos de Jair Bolsonaro e fragiliza projeto político da família
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 05/11/2025 às 14:31 | Atualizado em: 05/11/2025 às 14:31
A disputa pelo Senado em Santa Catarina, estado onde Jair Bolsonaro obteve suas votações mais expressivas no país, acabou explodindo em público e tornou-se símbolo da fragmentação interna do clã.
O filho vereador Carlos Bolsonaro insiste em concorrer, mas vê a base se dissolver e o projeto ser minado pelo próprio núcleo familiar e pelas estratégias do PL catarinense.
A crise ganhou forma após Michelle Bolsonaro posar novamente ao lado da deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) e reafirmar apoio a ela como candidata ao Senado.
O gesto contrariou o plano anunciado por Carlos e pelo irmão Eduardo de que a “chapa bolsonarista” seria formada por ele e Caroline.
Na prática, o movimento de Michelle escancarou o impasse: se Caroline entrar, Carlos tem que sair, e vice-versa.
E Carlos parece ser o único que ainda finge não ter entendido.
A conta que não fecha
O governador Jorginho Mello (PL), presidente do partido no estado, firmou com Jair Bolsonaro uma engenharia política pragmática: uma vaga para o clã e outra para o aliado do governo estadual, hoje Esperidião Amin (PP).
Como o eleitor vota em dois senadores, a estratégia prevê orientação de voto casado: Amin com Carlos.
Colocar Caroline na chapa rompe o acordo e exige retirar o filho de Bolsonaro do jogo.
Ainda assim, Carlos insiste em se colocar ao lado da deputada, contra o desenho do partido e contra as lideranças regionais.
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Michelle x filhos: confronto já foi silencioso
Com o novo aceno público a Caroline, Michelle se descolou da estratégia dos filhos e sinalizou que o comando do bolsonarismo já não é vertical como antes.
A presidente do PL Mulher, ao apoiar uma candidata ameaçada de desligamento do partido, derruba o discurso do clã de unidade e posiciona-se, de fato, fora da tática de Carlos e Eduardo.
O gesto se encaixa no movimento mais amplo de Michelle para construir protagonismo próprio, e não apenas atuar como extensão política do marido e dos filhos.
Linha do tempo — Michelle x Carlos
| Data aproximada | Movimento | Efeito |
|---|---|---|
| Junho–Julho 2024 | Carlos anuncia pretensão ao Senado em SC | Começa a disputa pela vaga do PL |
| Agosto 2024 | PL formaliza fórmula: Amin + nome do clã | Estrutura favorece Carlos |
| Outubro 2024 | Michelle faz gesto público a Caroline | Tensão interna emerge |
| Janeiro 2025 | Eduardo reforça narrativa de chapa Carlos + Caroline | Contradição com acordo local |
| Fevereiro 2025 | Campagnolo desmente “chapa dupla” | Diretório local se irrita |
| Março 2025 | Michelle volta a apoiar Caroline publicamente | Isolamento de Carlos se consolida |
| Agora | PL indica que Caroline terá que sair se insistir | Michelle e Carlos na contramão da cúpula |
Campagnolo abre a caixa-preta da direita radical
A crise se agravou quando Ana Campagnolo, figura central da ala olavista, afirmou que não existe “chapa Carlos + Caroline”.
Para ela, Carlos é o excedente na equação. Eduardo reagiu e chamou a deputada de desleal, ampliando o racha público.
Estratégia suicida, risco real
Se PL, PP e bolsonaristas dividirem votos entre Carlos Bolsonaro, Esperidião Amin e Caroline de Toni (caso insista), o risco é nenhum bolsonarista ser eleito.
A fragmentação beneficia adversários e ameaça a reeleição de Jorginho Mello, que agora fala cada vez menos em Bolsonaro.
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Pós-bolsonarismo começa por Santa Catarina
O episódio é o primeiro grande experimento do que pode ser o bolsonarismo sem centralidade absoluta do líder.
Carlos Bolsonaro, que sempre operou como guardião da narrativa digital do pai, agora surge como peça isolada, sustentado apenas por Bolsonaro pai e Eduardo, e sem musculatura própria no estado.
Santa Catarina experimenta o bolsonarismo sem Bolsonaro, e Carlos descobre como é estar do lado de fora.
A disputa pelo Senado em SC já não é só eleitoral. Ela revela fissuras, testa hierarquias e sinaliza que a máquina que a família construiu já começa a andar, ou a divergir, sem pedir bênção ao clã.
O resultado, por ora, é um: Carlos ficou só.
Foto: Divulgação/ Presidência
