Mais de 100 mortos, nenhum chefão preso, zero território retomado
Megaoperação no Rio expõe o fracasso do plano de segurança de Cláudio Castro, com suspeitas de motivação política
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 29/10/2025 às 21:10 | Atualizado em: 29/10/2025 às 21:13
A megaoperação realizada nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, resultou em mais de 119 mortos, segundo números oficiais — a Defensoria Pública fala em mais de 130 corpos.
Foram 113 prisões e 118 armas apreendidas, entre elas 91 fuzis, segundo o balanço das polícias Civil e Militar.
A ação, planejada durante 60 dias, é tratada pelo governador Cláudio Castro como “o maior golpe da história contra o Comando Vermelho”.
Mas, na prática, a operação expôs o fracasso do Estado em suas próprias promessas: nenhum chefão da facção foi preso, nem o principal alvo declarado — e nenhum território foi retomado após as incursões.
O aparato policial deixou as favelas logo após as execuções, sem estabelecer presença do poder público, o que reforça a crítica de que o objetivo era apenas matar.
“Piabinhas” mortos e silêncio sobre os nomes
Nenhum dos mortos foi oficialmente identificado como integrante do crime organizado, mas o governador e sua cúpula insistem em classificá-los como “narcoterroristas”.
O contraste entre a retórica e a ausência de provas acirrou a reação de entidades de direitos humanos e de moradores, que denunciam um massacre de jovens pobres e negros — os chamados “piabinhas” do tráfico, expressão usada no próprio jargão policial para designar os executores de baixo escalão.
“A ação matou quem estava na ponta da miséria, não quem financia a violência”, sintetizou um defensor público ouvido após as visitas aos locais.
Muito barulho, pouco resultado
A apreensão de 91 fuzis foi apresentada como símbolo do êxito da operação.
No entanto, especialistas em segurança apontam que esse número revela a limitação do cerco diante do arsenal já conhecido nas mãos das facções do Rio, estimado em milhares de armas de grosso calibre.
A própria polícia reconhece que o foco eram 100 mandados de prisão, mas apenas 33 suspeitos de outros estados foram capturados.
“O Estado invadiu, matou e saiu. Isso não é política de segurança, é vingança social travestida de ação policial”, disse um delegado sob anonimato.
O pano de fundo político
O contexto político ampliou a desconfiança.
A operação coincidiu com a volta do presidente Lula da Silva ao Brasil, após viagem internacional, e ocorreu dias depois de Flávio Bolsonaro sugerir, em público, uma ação conjunta com os Estados Unidos contra o tráfico no litoral fluminense.
Logo após o banho de sangue, governadores alinhados à direita e à extrema direita, como Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO) e Jorginho Mello (SC), manifestaram apoio a Cláudio Castro.
Além disso, confirmaram presença em reunião política nesta quarta-feira (30 de outubro) no Rio de Janeiro. Possivelmente, os governadores bolsonaristas vão alinhar um discurso que mire Lula.
Lula reage
O governo Lula reagiu com cautela, mas convocou reunião emergencial com ministros da Justiça, da Defesa e dos Direitos Humanos, além da Advocacia-Geral da União.
Entre as medidas discutidas está a possibilidade de decretar Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para intervenção no Rio, hipótese que reacendeu o debate sobre o controle civil das forças de segurança.
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a adoção de protocolos de uso proporcional da força e rastreamento das armas e munições utilizadas na operação.
Já o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criticou duramente o governador fluminense, lembrando que Castro nada faz contra a máfia dos combustíveis, mas “se orgulha de massacrar pobres em nome da segurança”.
Repercussão negativa e isolamento
A repercussão mundial do massacre capitaneado pelo governador bolsonarista foi imediata.
Veículos estrangeiros compararam o número de mortos no Rio com o de ataques em zonas de guerra, afirmando que o Brasil viveu em um dia mais mortes que Israel provoca na Faixa de Gaza.
O episódio deixou Castro isolado politicamente, mesmo dentro de setores conservadores preocupados com o impacto da violência na imagem do país.
- “O Estado perdeu de novo: não pacificou, não puniu os chefes e não devolveu o território”, resume um analista ouvido pelo BNC Amazonas.
Sucesso ou fracasso da segurança?
A operação que o governador chamou de “sucesso” se tornou símbolo do colapso da política de segurança pública fluminense.
Em vez de recuperar a autoridade do Estado, o episódio reforça o modelo falido de confronto, no qual os pobres seguem morrendo, os chefes continuam impunes e o território permanece nas mãos do crime.
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
