Lavagem de fé: quando templos viram cofres do crime organizado
Operação Carbono Oculto levanta suspeitas sobre uso de templos religiosos por facções criminosas para lavar fortunas.
Adríssia Pinheiro, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 29/08/2025 às 12:25 | Atualizado em: 29/08/2025 às 12:49
Nesta quinta-feira (28 de agosto), a maior operação já realizada contra o crime organizado no Brasil, a Carbono Oculto, trouxe à tona suspeitas sobre possíveis esquemas de lavagem de dinheiro que poderiam envolver, entre outros setores, templos religiosos.
Reportagem do canal Sombras da Ganância, no YouTube, há poucos dias antes da operação, já mostravam essa conexão de igrejas com as facções criminosas, notadamente as do narcotráfico.
O foco inicial das investigações da operação foi o setor de combustíveis, mas as autoridades destacaram que há setores ainda a serem explorados, como instituições de pagamentos e até igrejas, pois o crime organizado estaria migrando da ilegalidade para mecanismos legais e sofisticados para ocultar patrimônio.
Imagine entrar em um templo modesto, cheio de silêncio e poucas cadeiras. Agora descubra que, em suas contas, depósitos saltaram de 3 mil reais para 1 milhão. Parece milagre? Para investigadores policiais, não.
Documentos analisados pelo Ministério Público Federal (MPF) mostram conexões entre líderes religiosos, traficantes e políticos locais.
Depósitos discretos em nome de igrejas modestas, que de repente recebem cifras milionárias incompatíveis com sua estrutura ou número de fiéis, multiplicando-se em bairros dominados por facções.
Instituições religiosas registradas em nome de “laranjas” se transformam em lavanderias de dinheiro, funcionando como empresas que mascaram atividades ilegais sob a proteção da fé e da imunidade tributária.
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O terreno fértil da fé
Segundo estimativas do censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), o Brasil conta hoje com cerca de 579 mil estabelecimentos religiosos, incluindo mais de 160 mil templos evangélicos abertos apenas desde 1990.
A imunidade tributária e a autonomia administrativa, descritas no art. 150, inciso VI, alínea “b”, da Constituição federal, facilitam que igrejas recebam doações em espécie, muitas vezes sem identificar doadores ou prestar contas detalhadas, criando brechas para atuação de criminosos “sofisticados”.
Esse terreno fértil é explorado por facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que movimenta aproximadamente R$ 5 bilhões por ano usando igrejas como instrumento para lavar dinheiro.
Valdeci Alves dos Santos, conhecido como “Colorido” e integrante da cúpula do PCC, montou um esquema de lavagem de dinheiro ao fundar sete igrejas evangélicas no Rio Grande do Norte, sob o nome “Assembleia de Deus para as Nações”.
Embora realizassem cultos e contratassem pastores, o verdadeiro objetivo era ocultar e legitimar cerca de R$ 200 milhões oriundos do tráfico de drogas, segundo o MPF.
De acordo com a BBC News Brasil, no Rio de Janeiro, que é uma das capitais com as maiores favelas do Brasil, o Terceiro Comando Puro (TCP) também tem buscado usar desses fatores, aliando-se a rádios comunitárias e igrejas em zonas periféricas para a lavagem de dinheiro.
Política e poder
A falta de fiscalização rigorosa sobre as entradas e saídas desses recursos, junto à resistência política e social em investigar instituições religiosas, faz com que esse mecanismo prospere silenciosamente (ou, não mais).
Questionar líderes religiosos é visto como ataque à crença, como o caso de Silas Malafaia, que tenta driblar investigações da Polícia Federal nas ações junto a Bolsonaro.
No Brasil que mais constrói templos do que escolas e unidades de saúde, a fé genuína segue sendo combustível para muitos desses esquemas, mas também pode ser instrumento para que sombras prosperem onde a luz deveria brilhar.
Foto: divulgação
