Governadores bolsonaristas imitam discurso ‘narcoterrorista’ para atrair Trump
Direita de Tarcísio, Castro, Caiado, Jorginho, Zema replica retórica de Trump para rotular traficantes como “terroristas” e preparar terreno para intervenção externa
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 01/11/2025 às 11:00 | Atualizado em: 01/11/2025 às 11:00
Na esteira da operação matança do governador do Rio de Janeiro, seus colegas bolsonaristas do “consórcio da paz” abraçaram o discurso de “guerra contra os narcoterroristas”.
Segundo reportagem do The New York Times após a ação trágica no Rio, a retórica dos bolsonaristas repete termos de Trump, o que levanta risco de inserção de intervenções e de perda da soberania nacional.
Ao mesmo tempo, aparece o comentário de Flávio Bolsonaro sobre embarcações de traficantes no Rio, reforçando a narrativa de que o tráfico é comparável a terroristas. E que, portanto, merece sofrer a mesma intervenção que ora os Estados Unidos fazem na Venezuela e já miram a Colômbia.
Imitando Trump
No ambiente internacional, Trump aplicou a etiqueta de “terroristas” a cartéis de drogas e agrupamentos no Caribe ou América Latina, como justificativa para operações militares ou apoio externo.
No Brasil, o governador do Rio, Cláudio Castro, ao comentar a matança nas comunidades do Complexo do Alemão e Penha, classificou os alvos como “narcoterrorismo” e declarou que “nenhum inocente foi morto”. São essas expressões que evocam discurso de guerra.
Também, o senador Flávio Bolsonaro afirmou em rede social que embarcações de traficantes no estado indicavam “apoio externo”, reforçando o quadro de que o crime se tornaria ameaça transnacional.
Leia mais
Datafolha: 57% dos cariocas aprovam operação mais letal do Rio
Por que “terrorismo” não cabe
Terrorismo, segundo tratados internacionais, pressupõe motivação política, ideológica ou religiosa, com objetivo de alterar ou intimidar sistemas estatais ou civis.
Já as facções criminosas no Brasil concentram-se no capital advindo do tráfico de drogas, extorsão, controle territorial. Dessa forma, sem fins declaradamente políticos ou ideológicos, pelo menos não percebido de forma clara e formal.
Assim sendo, para rotular essas organizações como terroristas exige base legal e jurídica que o Brasil não tem.
Tentativa de achar narrativa eleitoreira
Governadores e líderes da direita aproveitam oportunisticamente a tragédia da ação de Castro no Rio para voltar a ter pauta na mídia, depois de assistirem o estrondoso sucesso do presidente petista pelo mundo.
Para tanto, repetem desde a matança histórica expressões como “estamos em guerra”, “inimigo interno”, “narco-terroristas”, “Estado paralelo”.
Por exemplo, o governador do Rio Grande do Sul, Romeu Zema, afirmou que o crime organizado “é ideologia, tem música e atrai cada vez mais jovens”. Na sequência, criticou o governo federal por não qualificar facções como terroristas.
Ao seu lado, Castro anunciava a formação do “consórcio da paz” apenas com colegas bolsonaristas como Tarcísio de Freitas (SP), Ratinho Jr. (PR), Jorginho Melo (SC), Romeu Zema (RS), Ronaldo Caiado (GO) e outros para combate ao “crime organizado”, como se o problema se restringisse tão somente a esses estados do sul.
Foi nesse mesmo instante que Castro entregou que “o colega Jorginho Mello é o marqueteiro da criação do consórcio”.
No final das contas, esses governadores mostram mesmo é menos preocupação com as vítimas do crime organizado e mais a intenção de se alinharem com a agenda de Trump, criando assim um ambiente propício à intervenção militar, sob o pretexto de “guerra ao terrorismo”.
Cegos à realidade do país
Ao tempo em que adotam essa postura lesa-pátria, como vem fazendo com mandato da Câmara o deputado Eduardo Bolsonaro, os governadores bolsonaristas ignoram a realidade da desigualdade social, guerra urbana no submundo das periferias, ausência do Estado, pobreza etc.
Resulta aí um risco de que o Brasil se torne alvo fácil de intervenção militar ou diplomática sob a justificativa de “guerra ao terrorismo”.
Esses governantes sabem que o Brasil precisa de justiça, cidadania e soberania, mas é preciso alimentar a bolha bolsonarista com esse discurso.
Afinal, no próximo ano tem o quê? … Pois é isso.
Foto: reprodução/YouTube
