Acordo Mercosul-União Europeia: O que a Zona Franca de Manaus tem a ganhar?

Com o acordo, o Amazonas tem a chance de modernizar sua indústria para atender a uma Europa ávida por sustentabilidade

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 16/01/2026 às 15:36 | Atualizado em: 16/01/2026 às 15:36

A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia ocorrerá neste sábado, 17 de janeiro, a partir das 12h15, horário local, no Gran Teatro José Asunción Flores, do Banco Central do Paraguai, em Assunção, após mais de 25 anos de negociações.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, vai representar o Brasil na cerimônia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não participará da solenidade em Assunção, encontra-se com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (16), véspera da assinatura do acordo.

O histórico anúncio do acordo de parceria entre o Mercosul e a União Europeia marca o início de uma nova era para a economia brasileira.

Definido pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, como o maior acordo entre blocos do mundo, o tratado envolve um mercado de 800 milhões de pessoas e um PIB somado de 22 trilhões de dólares.

Para o Amazonas, a grande dúvida é: como esse gigante acordo de livre comércio se conecta com a Zona Franca de Manaus (ZFM)?

No entanto, para entender o impacto, é preciso primeiro desfazer a confusão didática:

A Zona Franca de Manaus é um modelo de desenvolvimento regional baseado em incentivos fiscais (como a isenção de IPI) para atrair indústrias para a Amazônia, compensando os custos logísticos.

O acordo Mercosul-União Europeia visa a redução ou eliminação de tarifas de importação e exportação entre os dois blocos econômicos.

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Sem ameaça direta à ZFM

Embora o acordo seja para zerar tarifas e integrar economias de estruturas distintas, com o Mercosul em desenvolvimento e a União Europeia composta majoritariamente por países desenvolvidos, há indicativos de que não há uma ameaça direta ao modelo ZFM, mas sim oportunidades de crescimento indireto e potencial.

Segundo as autoridades brasileiras e especialistas, o acordo não anula as vantagens da ZFM, mas oferece ao Amazonas a chance de modernizar sua indústria para atender a uma Europa ávida por sustentabilidade.

Para Geraldo Alckmin, em entrevista ao programa “Bom dia, Ministro”, nesta quinta-feira (15 de janeiro), o comércio exterior é emprego na veia. Segundo ele, o primeiro grande reflexo do acordo será o aumento das exportações brasileiras de commodities, como minérios, soja e carnes, para os 27 países do bloco europeu.

Conexão com o polo industrial de Manaus

Por sua vez, o superintendente-adjunto executivo da Suframa, Frederico Aguiar, explica a conexão direta com o polo industrial de Manaus: ao exportar mais, o Brasil gera mais renda e emprego em nível nacional.

“As pessoas produzindo e trabalhando mais, deverão consumir mais. Então há um impacto indireto: comprar mais TV, mais celular”, afirma Aguiar.

Ele destaca que o fortalecimento da economia brasileira impulsiona a demanda pelos bens de consumo produzidos na ZFM.

Cautela e otimismo

Já o presidente da Abraciclo – associação das indústrias do polo de duas rodas do polo industrial de Manaus – Marcos Bento, adotou um tom de cautela otimista, revelando que a entidade já possui especialistas dedicados a analisar os detalhes do acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

Para Bento, o sucesso do acordo para a indústria brasileira depende fundamentalmente de uma balança comercial justa.

“O acordo favorece tanto a importação quanto a exportação. Se for equilibrado neste aspecto, para nós, tanto para a indústria de motocicletas quanto de bicicletas, ele é favorável e vemos com bons olhos”, afirmou o presidente.

Manaus tem tecnologia global

Um dos pontos centrais da fala de Marcos Bento foi a defesa da qualidade do que é produzido no polo industrial de Manaus. Ele rechaçou a ideia de que o setor teria dificuldades de competir no mercado europeu, argumentando que os modelos fabricados atualmente no Amazonas já seguem padrões internacionais.

“Nós produzimos produtos de alta tecnologia. O polo industrial de Manaus, tanto em bicicletas quanto em motocicletas, possui modelos que são de tecnologia global”, destacou Bento.

Portanto, a posição da Abraciclo indica que, sob as condições certas de equilíbrio tarifário e regulatório, a abertura do mercado europeu pode ser um novo motor de crescimento para as exportações da ZFM, que hoje têm como principais destinos vizinhos sul-americanos como Argentina e Colômbia.

Bioeconomia amazônica

Na visão de Frederico Aguiar, da Suframa, a maior janela de oportunidade direta para o Amazonas reside na sua bioeconomia. Segundo ele, a União Europeia demonstra alto interesse em produtos sustentáveis e de origem amazônica.

Dessa forma, o acordo abre espaço para que produtos industrializados na região, como chocolates de cacau nativo, polpas de fruta e o guaraná, ganhem o mercado europeu com tarifas reduzidas ou zeradas.

Além disso, há um potencial para o fornecimento de bioinsumos para a sofisticada indústria de cosméticos europeia.

Geraldo Alckmin reforça que o acordo fortalece os compromissos do Brasil com a sustentabilidade e a preservação da Amazônia, o que funciona como um “selo de qualidade” para atrair investimentos europeus que buscam produtos com baixa emissão de carbono.

A ZFM está sob risco?

Desse modo, a preocupação comum é se a abertura para a manufatura europeia poderia prejudicar a indústria local. Segundo a Suframa, essa possibilidade é remota por dois motivos principais:

• Perfil do comércio europeu: cerca de 60% a 70% do comércio da União Europeia é intrabloco, ou seja, eles compram e vendem prioritariamente entre si.

• Logística e investimento: a distância geográfica e os custos logísticos tornam difícil para os produtos europeus competirem em preço com os nacionais em determinados segmentos.

• Além disso, muitas empresas europeias já produzem no Brasil, por isso, não faria sentido desinvestir aqui para tentar vender a partir da Europa.

Pontos de atenção

O risco reside na competitividade. Se o acordo permitir a entrada de produtos acabados europeus com tarifas zero sem que a indústria brasileira tenha condições equivalentes de custo de produção (logística e carga tributária interna), a ZFM poderia perder espaço no mercado doméstico.

“Se esse acordo for equilibrado neste aspecto [importação e exportação], para nós, tanto para a indústria de motocicletas quanto de bicicletas, ele é favorável e vemos com bons olhos”, concluiu Marcos Bento.

Próximos passos

O cronograma prevê que o acordo seja assinado em breve, com expectativa de aprovação pelo parlamento europeu e pelo Congresso Nacional brasileiro ainda no primeiro semestre de 2026.

Se cumprido o prazo, o acordo entrará em vigência no segundo semestre de 2026, iniciando o processo de desburocratização e atração de investimentos recíprocos.

Em suma, as dúvidas sobre um possível conflito entre o livre comércio do acordo e a natureza da ZFM procedem como cautela, mas são realidades complementares, afirmam as autoridades e especialistas.

Foto: divulgação