O xeque-mate no Amazonas: a engenharia de David Almeida e o dilema da caneta
Para o autor, a movimentação política no Amazonas pode pavimentar a hegemonia de Almeida, ao garantir a lealdade de aliados no comando do estado e da capital
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 28/12/2025 às 14:48 | Atualizado em: 28/12/2025 às 14:48
A política amazonense caminha para um cenário onde a matemática das urnas encontra a oportunidade estratégica.
Com a decisão pessoal e legítima do governador Wilson Lima de disputar uma vaga no Senado em 2026, abre-se um vácuo no Palácio Rio Negro que pode selar o destino do estado.
Se o plano de David Almeida se confirmar, ele terá a chance de disputar o governo contando com aliados de sua estrita confiança nas duas principais cadeiras do Amazonas.
Mas, é aqui que a lição de Nicolau Maquiavel se torna um alerta:
” Aquele que é a causa do poder de outrem, arruína-se “.
O bunker de David: estado e prefeitura
A saída de Wilson Lima para o Senado coloca o vice-governador Tadeu de Souza no comando do estado.
Tadeu não é apenas o sucessor legal; é um aliado que veio do núcleo duro de David Almeida.
Simultaneamente, ao disputar o governo, Almeida entregaria a Prefeitura de Manaus ao seu vice, Renato Magalhães Júnior, outro nome de sua absoluta confiança.
Na prática, Almeida entraria na campanha com o suporte direto das duas máquinas que hoje movem a economia e a política do Amazonas.
Maquiavel ensinava que um príncipe prudente deve basear seu poder em forças próprias.
Ao ter “os seus” nas cadeiras de comando, Almeida tenta transformar a campanha em um cálculo de precisão. Ele passa a ter a vitrine da prefeitura para manter a força em Manaus e a caneta do estado (via Tadeu) para consolidar o apoio dos prefeitos no interior.
O segundo turno e a morte das “cabeças de cobra”
Neste tabuleiro, a maior vítima da engenharia de Almeida seria Omar Aziz. Com o controle total das máquinas, David teria força suficiente para asfixiar a candidatura do senador já no primeiro turno, excluindo-o da fase final da disputa.
O cenário que se desenha para o segundo turno é um embate direto entre a estrutura governista de Almeida e o peso ideológico de Maria do Carmo Seffair.
É nesse momento que David Almeida aplicaria o golpe de mestre: ao enfrentar Maria do Carmo detendo as chaves do estado e da capital, ele teria uma probabilidade altíssima de vitória, “matando” politicamente duas cabeças perigosas de uma só vez.
De um lado, eliminaria a ameaça da extrema direita de Do Carmo; do outro, aposentaria a hegemonia histórica de Aziz.
Para Maquiavel, um líder só está seguro quando elimina a capacidade de seus rivais reagirem, e Almeida estaria limpando o trilho para reinar soberano.
O risco da “cadeira que transforma”
Entretanto, o realismo maquiavélico impõe uma dúvida:
A lealdade sobrevive à posse do poder real?
No momento em que Tadeu e Renato assumirem as cadeiras, eles deixam de ser aliados de bastidor para se tornarem os chefes do Executivo.
Maquiavel alertava que “os homens esquecem mais rápido a morte do pai do que a perda do patrimônio”.
E o patrimônio, na política, é a autonomia da caneta.
O sucesso de David Almeida depende de que seus aliados resistam à tentação de criar projetos próprios após se sentarem no trono.
O novo rei do Amazonas
Se o cenário se confirmar e a lealdade de Tadeu e Renato se provar inabalável, David Almeida terá pavimentado o caminho para uma nova hegemonia política de oito anos.
Ele terá conseguido o que poucos ousaram: disputar o comando do estado com o controle indireto da capital e do Palácio Rio Negro.
No fim, o isolamento não será apenas de um gigante, mas a substituição de toda uma era política por um novo sistema onde David Almeida dá as cartas sozinho.
O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: divulgação
