O preço da bolsa não chega ao cacauicultor brasileiro

É inadmissível que, diante de uma escassez global de cacau e de preços em alta lá fora, quem planta no Brasil continue recebendo menos do que deveria

O preço da bolsa não chega ao cacauicultor brasileiro

Por Celso Ricardo Ferreira*

Publicado em: 02/10/2025 às 11:40 | Atualizado em: 02/10/2025 às 11:40

O produtor de cacau brasileiro enfrenta mais uma dura realidade: não recebe o valor justo pela sua produção, mesmo em um momento em que o mercado internacional registra preços históricos.

Enquanto a bolsa de Nova York aponta cotações recordes — impulsionadas pela quebra de safra na Costa do Marfim e em Gana, os maiores produtores mundiais —, no Brasil as indústrias processadoras (AIPC) impõem deságios abusivos e pagam muito abaixo do valor de referência internacional.

Essa prática tem um objetivo claro: segurar as altas no mercado interno e proteger as margens da indústria, às custas do sacrifício do cacauicultor. O resultado é perverso: o produtor enfrenta custos crescentes, vê a valorização escapar pelas mãos e continua sendo tratado como a parte mais fraca da cadeia produtiva.

É inadmissível que, diante de uma escassez global de cacau e de preços em alta lá fora, quem planta no Brasil continue recebendo menos do que deveria. O cacauicultor não pode ser tratado como variável de ajuste no balanço da indústria.

Por isso, cobro medidas imediatas:

  • Transparência total nas tabelas de preços e nos critérios de desconto aplicados pelas processadoras;
  • Fiscalização rigorosa e investigação sobre práticas comerciais abusivas que prejudicam os produtores;
  • Compromisso real do Mapa em defender quem produz, e não apenas quem processa e exporta;
  • Fortalecimento da organização dos produtores, para que tenham voz ativa, poder de negociação e participação justa na renda do setor.

O Brasil tem todas as condições de ser protagonista no mercado mundial de cacau. Mas isso só será possível quando o produtor for respeitado e remunerado de forma justa e transparente.

Até lá, seguiremos denunciando e cobrando. O preço da bolsa precisa, obrigatoriamente, chegar ao campo.

*O autor é consultor em gestão estratégica em agronegócio.

Foto: Paula Laboissiêre/Agência Brasil