A ironia da sociedade de consumo
Letícia Fragoso reflete sobre como a sociedade de consumo redefine a felicidade e mostra, a partir de uma experiência em Apiaí, que a verdadeira riqueza nasce das relações humanas.
Letícia Fragoso*
Publicado em: 06/07/2026 às 19:50 | Atualizado em: 06/07/2026 às 19:50
Nunca tivemos tanto conforto, tanta tecnologia e tantas possibilidades de consumo. Ao mesmo tempo, cresce a dificuldade de encontrar sentido na vida. Essa é a grande ironia da sociedade contemporânea: passamos a medir, quase sem perceber, a felicidade pela capacidade de consumir.
Essa lógica se tornou tão natural que dificilmente a questionamos. A casa maior, o carro mais novo, a viagem mais distante e os objetos mais desejados passaram a representar, quase automaticamente, sinais de uma vida bem-sucedida.
Em contrapartida, tudo aquilo que escapa à lógica do mercado costuma ser tratado como secundário, quando não invisível. É justamente nesse ponto que surge outra ironia.
Enquanto transformamos a expressão “feliz no simples” em legenda para fotografias de fim de semana ou em frases prontas para redes sociais, perdemos de vista o que ela realmente significa.
Nesse contexto, a simplicidade virou estética. Raramente continua sendo uma reflexão sobre a maneira como construímos nossos vínculos e damos sentido à existência.
Foi essa percepção que surgiu durante uma atividade de campo realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Conservação e Sustentabilidade da UFSCar, no assentamento Professor Luiz David Macedo, em Apiaí, interior de São Paulo. Em apenas dois dias, algumas certezas que construí ao longo de muitos anos começaram a perder a solidez.
Quando o consumo deixa de explicar a felicidade
Uma das conversas mais marcantes aconteceu com uma senhora que vive na comunidade desde a criação do assentamento. Antes da conquista da terra, ela morava na mesma fazenda onde hoje construiu sua casa.
Pagava aluguel ao proprietário por uma pequena construção de madeira, sem piso, erguida diretamente sobre a terra. Trabalhava diariamente e, ainda assim, permanecia endividada com quem controlava sua moradia e seu trabalho.
A história poderia ser narrada apenas como mais um retrato da desigualdade brasileira. Mas não foi isso que mais chamou a atenção. Enquanto descrevia um passado marcado por privações, ela sorria. Não havia qualquer tentativa de negar as dificuldades enfrentadas. Tampouco existia ressentimento. Havia serenidade.
Ao lado da casa onde vive atualmente, construiu uma cozinha de madeira com fogão a lenha. Disse que é ali onde mais gosta de permanecer. Contou, entre risos, que, quando tomou seu primeiro banho de chuveiro elétrico, saiu correndo de medo. Até hoje prefere o banho de caneca com água fria porque acredita que isso fortalece sua saúde.
Nada disso significa que a precariedade seja desejável. Infraestrutura, saneamento, saúde e moradia digna continuam sendo direitos fundamentais. A questão é outra. Aquela conversa mostrou que reduzir a felicidade ao padrão de conforto definido pela sociedade de consumo é um dos maiores equívocos do nosso tempo.
A riqueza que os indicadores não medem
Outra cena reforçou essa impressão.
Durante uma visita a outra propriedade, uma arquiteta que participava da atividade elogiou a camiseta usada por um agricultor. Ele respondeu com simplicidade: “Tenho duas dessa. Se você quiser, eu lhe dou uma.”
Todos imaginaram tratar-se apenas de uma gentileza. Algumas horas depois, ele voltou trazendo uma sacola de mercado. Dentro dela estava a camiseta cuidadosamente dobrada. O presente era verdadeiro. Esse pequeno gesto diz mais sobre riqueza do que muitos indicadores econômicos.
Vivemos em uma sociedade orientada pela lógica da acumulação. Desde cedo aprendemos que possuir significa conservar. Compartilhar costuma acontecer apenas depois que todas as necessidades individuais estiverem satisfeitas.
No assentamento que visitei, entretanto, a lógica parecia outra. Quem possuía menos recursos materiais demonstrava enorme disposição para compartilhar aquilo que tinha. Essa diferença ajuda a compreender uma distinção frequentemente esquecida: pobreza não é sinônimo de ausência de riqueza.
Existem riquezas que não aparecem em contas bancárias, patrimônios ou estatísticas econômicas. A confiança entre vizinhos, a hospitalidade espontânea, a reciprocidade, o sentimento de pertencimento e a disposição para ajudar constituem formas de capital social e simbólico que sustentam a vida coletiva muito antes da intervenção do mercado.
A ironia da sociedade de consumo
Talvez seja justamente essa a maior ironia do nosso tempo. Quanto mais aperfeiçoamos nossa capacidade de produzir bens, mais passamos a acreditar que felicidade também pode ser produzida, comprada ou acumulada.
O conforto melhora a vida. Ninguém deveria abrir mão dele por romantismo. Entretanto, conforto e plenitude pertencem a dimensões diferentes da experiência humana.
A própria expressão “feliz no simples” acabou capturada pela lógica que pretendia criticar. Tornou-se uma frase pronta, repetida por pessoas que frequentemente dispõem de todas as condições materiais para escolher quando desejam viver momentos de simplicidade.
Nesses termos, a simplicidade transformou-se em estilo de vida. Deixou de ser uma reflexão sobre vínculos humanos. Por isso, experiências como a vivida em Apiaí são tão desconcertantes. Elas revelam que existem formas de riqueza que escapam completamente ao mercado.
O que Apiaí realmente ensinou
Saí do assentamento convencida de que dignidade material, infraestrutura e direitos sociais continuam sendo objetivos indispensáveis para qualquer sociedade que pretenda ser justa. Nada do que foi vivido ali autoriza romantizar a pobreza.
Ao mesmo tempo, voltei com outra convicção. O dinheiro pode oferecer conforto. Pode ampliar oportunidades. Pode facilitar escolhas. Mas existe uma dimensão da felicidade que ele jamais será capaz de fabricar. Ela nasce da confiança entre as pessoas, da reciprocidade, da solidariedade vicinal cotidiana e da capacidade de compartilhar mesmo quando se possui pouco.
A maior ironia da sociedade de consumo é esta: passamos tanto tempo procurando felicidade nas coisas que esquecemos de procurá-la nas relações.
Foi essa lição que Apiaí deixou. Ela diz muito mais sobre nós, habitantes das cidades e consumidores permanentes, do que sobre aquela comunidade rural.
A autora é Eng. Civil, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Conservação e Sustentabilidade da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), câmpus Lagoa do Sino.*
Foto: Arquivo pessoal.
