O faroeste tem nome e história: a trajetória de Bolsonaro e a origem do caos político
Bolsonaro usou e legitimou a violência como ferramenta de expressão e ação.
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 19/09/2025 às 09:40 | Atualizado em: 19/09/2025 às 09:40
Quando se busca compreender a polarização e a violência política no Brasil, muitos tentam rotular o fenômeno como um “faroeste caboclo”, uma desordem sem causa ou sem rosto.
No entanto, essa análise ignora que a semente da discórdia e da violência foi plantada e cultivada intencionalmente por um elemento específico na vida pública brasileira.
Este artigo argumenta que a desordem política no país não é um evento aleatório, mas a consequência direta da trajetória e das declarações de um líder político que usou e legitimou a violência como ferramenta de expressão e ação.
A retórica de violência e conflito
A trajetória de Jair Bolsonaro, desde seus anos como deputado federal até a Presidência, é marcada por declarações que geraram grande controvérsia e são frequentemente usadas para ilustrar seu estilo político.
Incitação à violência em campanha
Durante um comício em Rio Branco, no Acre, em 2018, Bolsonaro simulou estar com uma metralhadora e declarou:
“Vamos fuzilar a petralhada toda aqui no Acre. Vamos botar para fora do estado. Metralhar a petralhada”.
A fala foi vista como um claro incitamento à violência física contra opositores políticos.
Defesa de ditaduras e tortura
Em 1999, ele declarou que o Brasil “só vai mudar, infelizmente, quando partirmos para uma guerra civil… matando uns 30 mil”.
Na mesma entrevista, ele criticou a ditadura chilena por não ter sido mais rigorosa e disse que o “erro da ditadura [brasileira] foi torturar e não matar”.
Elogio a um torturador
Em um ato que gerou grande repúdio, ele dedicou seu voto no processo de impeachment de Dilma Rousseff ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um militar que é reconhecido pela Justiça como um torturador do período militar.
Ataques verbais
Seu histórico inclui agressões verbais a outros políticos, como a deputada Maria do Rosário, a quem ele disse em 2003 que “não a estupraria porque ela não merecia”.
Ele também sugeriu em 1999 que o então presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ser fuzilado por ter privatizado empresas estatais.
Do Exército à Presidência: um histórico de desafios
Antes mesmo de sua longa carreira como deputado, o histórico de Bolsonaro no Exército já era marcado por conflitos com a autoridade.
Problemas disciplinares
- Em 1986, ele foi detido por 15 dias após escrever um artigo em uma revista criticando os baixos salários de militares.
- Ele também foi acusado de planejar um atentado a bomba em quartéis, mas foi absolvido por falta de provas.
- Esses episódios sinalizaram seu temperamento insubordinado e sua disposição de desafiar a hierarquia.
- Sua presidência foi marcada por um confronto direto com o poder Judiciário, em especial com o Supremo Tribunal Federal (STF). Conflitos com o STF
- Ele questionou publicamente a integridade do sistema eleitoral e atacou ministros do STF, como Alexandre de Moraes, a quem acusou de perseguição política.
- Em discursos, ele chegou a dizer que não cumpriria as decisões do ministro, em um claro desafio à autoridade do Judiciário. O discurso desagregador e seus alvos
O discurso de Bolsonaro atingiu também minorias e grupos sociais, reforçando a polarização.
Comentários homofóbicos e racistas
- Em 2011, ele declarou que preferia que um filho seu morresse em um acidente do que fosse homossexual.
- Anos depois, fez um comentário considerado racista sobre quilombolas, comparando-os a animais. Oposição a direitos
- Em 2013, ele foi um dos poucos deputados a votar contra a PEC das domésticas, que expandia direitos para a categoria, alegando que a medida geraria desemprego. Conclusão
Ao analisar todas essas declarações e ações em conjunto, a tese de que a desordem política no Brasil é apenas um “faroeste caboclo” perde força.
Os fatos apontam para uma causa clara: a trajetória de um líder político que, por décadas, legitimou a violência, a intolerância e o desrespeito às instituições.
Esse comportamento não apenas moldou a política, mas também o comportamento de uma parte significativa de seus seguidores, tornando o clima político atual um reflexo direto de um discurso que se alimenta da discórdia.
A reconciliação, portanto, se torna mais distante, uma vez que o elemento central da discórdia permanece ativo na vida pública.
*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
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